Grau zero
Em artigo no «DN» de 6/11, onde deixou claro que partilha da «mesmíssima convicção europeista» de Manuel Villaverde Cabral (que, uma semana antes, voltara a assumir naquele jornal uma intransigente defesa do federalismo), veio Miguel Portas exarar um sentido queixume sobre a falta de debate sobre as questões europeias.
E, encontrando variados responsáveis pela situação, veio sentenciar que «compreende-se também que o PCP – que sobre Europa só sabe soletrar Portugal – tenha reduzido interesse no debate europeu».
A este respeito, o que se nos oferece dizer, em curto, é que fosse Miguel Portas capaz de resistir à tentação da caricatura e da deturpação das posições alheias e de esbracejar um pouco para sair do grau zero do debate político em que às vezes se afunda, e não teria então nenhuma dificuldade em encontrar reais diferenças de opinião e de visão sobre a Europa entre o PCP e o Bloco de Esquerda.
Podia, por exemplo, identificar que o PCP é contra a própria ideia de «Constituição Europeia» (seja pelo seu significado simbólico seja pelas suas consequências práticas, ambos consagradores da existência jurídica e política de um super-Estado europeu), enquanto que o Bloco de Esquerda diz ser contra ela sobretudo por não ter saído de uma Assembleia Constituinte eleita pelo voto dos cidadãos dos actuais 15 países da U.E. e dos 10 do alargamento.
Podia, por exemplo, salientar que ele próprio e o BE têm uma reserva estruturante à negociação entre governos no processo de integração e estão deslumbrados com «a ideia de uma soberania popular de dimensão europeia» enquanto o PCP adverte que, quanto mais se apostarem em mecanismos de natureza federalista, mais prisioneiros ficarão os Estados nacionais das imposições e políticas neo-liberais, bastando para tanto atentar na correlação de forças e posições e orientações já hoje dominantes no Parlamento Europeu e que, com toda a probabilidade, se agravarão com o alargamento.
Miguel Portas podia pois dizer tudo isto e muito mais. Mas prefere decretar que, sobre a Europa, o PCP só «sabe soletrar Portugal», querendo com isto dizer que o PCP não teria nenhuma ideia ou proposta sobre os rumos necessários para o processo de integração europeia.
Aqui chegados, talvez bastasse recomendar a Miguel Portas pelo menos a leitura da declaração programática com que o PCP concorreu às eleições para o PE em 1999.
A verdade porém é que é mais franco registar com tristeza que Miguel Portas se limita afinal a imitar o bafiento truque do PS e do PSD que consiste em acusar de «isolacionismo» e de «nacionalismo» estreito quem se atrever a formular e defender um projecto e uma visão para a Europa alternativos aos similarmente sustentados por aqueles dois partidos.
E, encontrando variados responsáveis pela situação, veio sentenciar que «compreende-se também que o PCP – que sobre Europa só sabe soletrar Portugal – tenha reduzido interesse no debate europeu».
A este respeito, o que se nos oferece dizer, em curto, é que fosse Miguel Portas capaz de resistir à tentação da caricatura e da deturpação das posições alheias e de esbracejar um pouco para sair do grau zero do debate político em que às vezes se afunda, e não teria então nenhuma dificuldade em encontrar reais diferenças de opinião e de visão sobre a Europa entre o PCP e o Bloco de Esquerda.
Podia, por exemplo, identificar que o PCP é contra a própria ideia de «Constituição Europeia» (seja pelo seu significado simbólico seja pelas suas consequências práticas, ambos consagradores da existência jurídica e política de um super-Estado europeu), enquanto que o Bloco de Esquerda diz ser contra ela sobretudo por não ter saído de uma Assembleia Constituinte eleita pelo voto dos cidadãos dos actuais 15 países da U.E. e dos 10 do alargamento.
Podia, por exemplo, salientar que ele próprio e o BE têm uma reserva estruturante à negociação entre governos no processo de integração e estão deslumbrados com «a ideia de uma soberania popular de dimensão europeia» enquanto o PCP adverte que, quanto mais se apostarem em mecanismos de natureza federalista, mais prisioneiros ficarão os Estados nacionais das imposições e políticas neo-liberais, bastando para tanto atentar na correlação de forças e posições e orientações já hoje dominantes no Parlamento Europeu e que, com toda a probabilidade, se agravarão com o alargamento.
Miguel Portas podia pois dizer tudo isto e muito mais. Mas prefere decretar que, sobre a Europa, o PCP só «sabe soletrar Portugal», querendo com isto dizer que o PCP não teria nenhuma ideia ou proposta sobre os rumos necessários para o processo de integração europeia.
Aqui chegados, talvez bastasse recomendar a Miguel Portas pelo menos a leitura da declaração programática com que o PCP concorreu às eleições para o PE em 1999.
A verdade porém é que é mais franco registar com tristeza que Miguel Portas se limita afinal a imitar o bafiento truque do PS e do PSD que consiste em acusar de «isolacionismo» e de «nacionalismo» estreito quem se atrever a formular e defender um projecto e uma visão para a Europa alternativos aos similarmente sustentados por aqueles dois partidos.