Outra vez o Iraque

José Casanova
Com o título «Amigos de Bush ganham milhões em obras no Iraque», um jornal informava, no sábado, que um conjunto de sete dezenas de empresas norte-americanas, entre as quais uma que tem como vice-presidente um facínora que dá pelo nome de Dick Cheney, abicharam contratos no valor de cerca de 8 mil milhões de dólares. Os contratos foram obtidos sem concurso, isto é foram oferecidos pelos ocupantes a quem muito bem entenderam. Segundo é dito, não se fizeram concursos por «falta de tempo»: a urgência da reconstrução do Iraque é muito grande, os responsáveis pela destruição do país nem dormem com tantas preocupações – preocupações que começaram antes, mesmo, de o país ter sido destruído, já que, como se sabe, a reconstrução do Iraque começou a ser discutida em simultâneo com a preparação da destruição do país. Assim, sem concursos, o bolo começou a ser distribuído. Selectivamente, como se compreenderá. Na verdade, as primeiras setenta empresas premiadas foram, todas elas, apoiantes da candidatura de Bush às presidenciais. Melhor dizendo: foram as que mais apoiaram a dita candidatura, cada uma delas contribuindo com, pelo menos, 500 mil dólares. Presume-se que as empresas que contribuíram com verbas menores, entrarão em cena numa segunda fase do negócio da reconstrução. E, tal como estas setenta, obterão contratos que lhes permitirão recuperar – upa, upa! – o capital investido na eleição do Chefe.
Ao mesmo tempo que estas notícias vinham a público, os resistentes iraquianos derrubavam um helicóptero carregado de militares norte-americanos. Dado que, da operação, resultou a morte de dezena e meia de ocupantes e ferimentos em mais de duas dezenas, há quem diga – e se não há, digo-o eu - que, provavelmente, os resistentes fizeram uso das tais tão faladas e tão procuradas armas de destruição maciça...
Uma coisa é certa: a resistência dos iraquianos (a que os propagandistas do Império chamam terroristas) às forças terroristas de ocupação (alcunhadas pelos mesmos de forças da coligação) persiste e intensifica-se. E esse é, seguramente, o dado de maior relevância na situação actual do Iraque.
Outra coisa é certa: essa heróica resistência iraquiana comporta consequências dramáticas em termos de perdas de vidas. Sabemos que todos os dias morrem ocupantes. Mas muitos mais hão-de ser os iraquianos mortos, todos os dias, pelos ocupantes.


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