Propagandistas
Há coisa de dois meses, Luís Delgado – que é um dos mais prolíferos e assanhados propagandistas do Império em terra lusitana e dispõe de uma quantidade e diversidade de veículos mediáticos que lhe permitem fazer chegar longe, muito longe, a sua propaganda - perguntava, em título, nas suas Linhas Direitas: «Caos no Iraque?». E respondia: «O Iraque, ao contrário do que se diz, não vive no caos. Basta consultar os dados oficiais americanos – que convém dizer são escrutinados ao pormenor – e que mostram o que foi feito em três meses.» E, enunciando um conjunto de «dados oficiais» norte-americanos «escrutinados ao pormenor», o propagandista demonstrava exaustivamente que, três meses após a ocupação do país pelas tropas do Império, «o Iraque de hoje» era, mais coisa menos coisa, um modelo de tranquilidade, de segurança e de ordem. Segundo Delgado (baseado em «dados oficiais»), a paz no país ocupado era visível, nomeadamente, nas ruas e nos bairros patrulhados por dezenas de milhares de polícias iraquianos, nas escolas em pleno funcionamento, nos bancos todos abertos, no comércio a funcionar na sua totalidade, no aumento da produção de petróleo (a ultrapassar, já, um milhão de barris por dia), na criação da Comissão de Redacção da Constituição, enfim no florescimento de um país novo, livre, democrático e, como não podia deixar de ser, respeitador dos direitos humanos. Esta visão pacífica e tranquila do Iraque divulgada por Luís Delgado viria a ser confirmada, umas semanas depois, através de milhares de cartas-gémeas enviadas por milhares de soldados do exército de ocupação para as suas famílias. A carta – cujo conteúdo informativo se baseava, certamente, nos tais «dados oficiais(...) escrutinados ao pormenor», na medida em que dela constavam informações muito semelhantes às que haviam sido divulgadas nas «Linhas Direitas» - fora escrita pelos serviços de propaganda do exército ocupante, limitando-se os soldados a assiná-la para lhe conferir a necessária autenticidade.
Ou seja: assinando as cartas, os soldados do exército dos EUA, utilizados como propagandistas, fizeram chegar às suas famílias a imagem tranquilizadora de um Iraque pacífico; divulgando os «dados oficiais», o exército de propagandistas dos EUA fez chegar a todo o Mundo a informação tranquilizante de que o Iraque, pacífico e democrático, «não é um caos». Quanto aos iraquianos, esses continuam a resistir.
Ou seja: assinando as cartas, os soldados do exército dos EUA, utilizados como propagandistas, fizeram chegar às suas famílias a imagem tranquilizadora de um Iraque pacífico; divulgando os «dados oficiais», o exército de propagandistas dos EUA fez chegar a todo o Mundo a informação tranquilizante de que o Iraque, pacífico e democrático, «não é um caos». Quanto aos iraquianos, esses continuam a resistir.