Não à guerra!

Manuela Bernardino

As poderosas manifestações contra a guerra de 15 de Fevereiro foram/são a expressão inequívoca que os povos dizem não à guerra que os EUA decidiram há muito desencadear contra o Iraque. Milhões e milhões de homens, mulheres e jovens em todo o mundo - dos EUA à Austrália, passando pela maioria dos países da Europa, levantaram a sua voz contra a aventura belicista que significa a intervenção militar no Iraque. A extraordinária mobilização, a nível mundial, em defesa da paz radica na crescente consciência de que a guerra que os EUA puseram em marcha é ilegítima, ilegal e injusta e que constituiria uma enorme catástrofe humanitária para o povo iraquiano e um imenso perigo para a paz e a estabilidade mundial. O caracter amplo e popular das manifestações de sábado revelam também a falência da campanha ideológica em torno do chamado «eixo do mal» e da inevitabilidade da guerra para o combater, encerrando uma clara condenação à extrema arrogância do imperialismo norte-americano.

A generalizada oposição à guerra, que teve a 15 de Fevereiro uma expressão massiva e inesquecível, favoreceu a emergência das contradições que estalaram entre EUA, França e Alemanha e no seio da NATO. Mesmo que, nos últimos dias, se estejam a recompor clivagens, - nomeadamente com a salvaguarda de apoio militar à Turquia, por parte da NATO, e com a declaração conjunta dos países da U.E. admitindo o recurso à força, caso se venha a concluir que o Iraque não cumpre com as Resoluções da ONU sobre desarmamento, -abriram-se brechas que feriram o «elo transatlântico» e que influenciarão a vida internacional no futuro. As inflexões negativas da França e da Alemanha, no quadro da U.E., contrapondo às próprias contradições inter-imperialistas, que se aprofundam, a cooperação com a determinação bélica da Administração Bush, só podem recuar com o aprofundamento da luta contra a guerra e contra a ofensiva do grande capital sobre os direitos dos trabalhadores.

Em Portugal, Durão Barroso exulta com este unanimismo no seio da U.E., que utilizará para credibilizar a sua posição de pronta submissão aos EUA, ao ceder as Lajes, e que se tornou ainda mais transparente com a carta que subscreveu com Blair, Aznar, Berlusconi e outros dirigentes da reacção europeia. Nela, procuram identificar as «convicções» da Administração Bush com a dos seus governos e com a dos respectivos povos, o que foi completamente negado com a jornada de protesto de 15 de Fevereiro que assinala, exactamente nesses países as maiores manifestações, com um clarificador não à guerra daqueles que sofrem as desastrosas consequências das políticas neoliberais que tais dirigentes implementam

A ampla frente contra a guerra, que o 15 de Fevereiro revelou, foi-se construindo também nas numerosas e diversificadas lutas dos trabalhadores contra a ofensiva do grande capital e contra a «nova ordem» económica e também securitária pós-11 de Setembro - que limitou direitos e liberdades-, constituindo um elemento novo, no plano mundial, com que o capitalismo terá que contar. A interligação destas frentes de luta evidencia-se à exaustão, no nosso país, através da vergonhosa coincidência das posições do PS face à greve geral e à manifestação do passado sábado. O PS isolou-se mesmo dos seus congéneres que, duma forma geral, apoiaram as manifestações contra a guerra, confirmando-se assim, cada vez mais, como um partido do sistema, um partido de alternância.

A paz exige, em Portugal e em todo o mundo, o empenho e a acção de todos que a tenham como um bem inalienável e supremo para toda a Humanidade. Pelo nosso lado, tudo faremos para o reforço da luta a favor da paz.



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