A «vitória»
Euforicamente, a generalidade dos órgãos de comunicação social nacionais anunciaram que «União Europeia admite recurso à força» na questão do Iraque, noticiando o facto como uma «vitória» dos belicistas de todos os matizes que, docilmente, abanam a cauda atrelados ao carro de guerra da administração Bush.
Jornais e televisões foram unânimes na proclamação da «novidade», acontecida após mais uma prolongada reunião (convocada de emergência) dos responsáveis máximos dos governos que tutelam os quinze países da União Europeia, havendo entre eles – exactamente os que, como Portugal, assinaram o tal «documento dos oito» a apoiar incondicionalmente os EUA na questão do Iraque – quem condescendesse em «explicar» que todos «haviam cedido um pouco» nas suas posições, encontrando-se «a meio» numa posição concertada e comum: a tal onde «a União Europeia admite recurso à força» na questão do Iraque.
O primeiro-ministro português, Durão Barroso, teve mesmo a arrogância de decretar, do alto da sua insignificância política (de que só ele parece não dar conta), que a Portugal não interessa saber quem ganhou ou perdeu no Conselho Europeu extraordinário que reuniu de emergência em Bruxelas. Segundo ele, o importante é que «houve uma preocupação de não pôr em causa o equilíbrio europeu e, apesar das diferentes sensibilidades, estivemos juntos no essencial».
Afinal, o que é que aconteceu exactamente nesta reunião de Bruxelas?
Aconteceu que – tal como antes exigia a França e a Alemanha – a União Europeia defende que a questão do Iraque seja resolvida pacificamente através das inspecções da ONU, cuja autoridade e espaço de manobra foi formalmente reafirmada.
Aconteceu que – tal como antes exigia a França e a Alemanha – foi afastada pela União Europeia a admissibilidade de uma ofensiva militar imediata contra o Iraque sem o apoio e a decisão formal da ONU.
Aconteceu que – tal como antes a França e a Alemanha nunca recusaram ou tentaram impedir – a União Europeia explicitou que, «em última instância» se poderá usar a força para se desarmar o regime de Saddam Hussein.
É óbvio que, nesta reunião de Bruxelas, nem toda a gente fez «meio caminho» para estarem todos «juntos no essencial».
A França e a Alemanha não retiraram uma vírgula às suas exigências nesta questão e, pelo contrário, os cinco diligentes signatários da vassalagem aos EUA (Reino Unido, Itália, Espanha, Noruega e Portugal) recuaram atabalhoadamente para enfileirar na posição negocial defendida pelos primeiros, designadamente na necessidade de se continuar com as inspecções no Iraque e no imperativo de se insistir nessa via.
Também todos concordaram no que nunca haviam discordado – que, «em última instância» e caso falhem os esforços diplomáticos e acções inspectivas, se deverá recorrer à força para desarmar o regime do ditador de Bagdad. Sob decisão da ONU, evidentemente.
O que os nossos órgãos de comunicação social não deram relevo, nesta cimeira de Bruxelas, foi ao puxão de orelhas, curto e grosso, que o presidente francês deu aos países de Leste candidatos à UE que alinharam no tal «documento dos oito» a apoiar incondicionalmente o belicismo dos EUA. Segundo Jacques Chirac, «perderam uma boa oportunidade de estar calados».
Eventualmente por delicadeza, quiçá por desnecessário, o chefe de Estado gaulês não repreendeu Durão Barroso pelo mesmo assunto.
Mas é evidente que não o vai esquecer - nem ele, nem a França, nem a Alemanha – e a seu tempo, nas instâncias próprias da União Europeia, hão-de lembrá-lo a Portugal, nomeadamente quando este surgir com alguma reivindicação.
Aí – haja ou não guerra dos EUA ao Iraque -, acertar-se-ão as contas e Portugal pagará, diligente, o «atlantismo» do sr. Barroso.
Grande vitória…