A voz do dono

Anabela Fino

A imprensa denunciou não há muito tempo a existência de um plano norte-americano para cativar os jornalistas e ganhá-los para a portentosa causa de ajudar a melhorar a imagem dos EUA junto da opinião pública. Aparentemente, os experts da Casa Branca chegaram à conclusão de que a mensagem de Bush está a ser mal compreendida - daí o crescente antagonismo que provoca -, pelo que se impõe assestar baterias para os sectores melhor situado para inverter uma tal situação, ou seja, os jornalistas.

Ouvidos os desmentidos da praxe quanto à existência de tal campanha, o assunto caiu no esquecimento. Não foi preciso esperar muito tempo, no entanto, para verificar que algo mudou no prolífero reino dos media.

As reacções ao relatório dos inspectores da ONU sobre o Iraque deram o mote. No dia 15, quando milhões de pessoas em todo o mundo se manifestação contra a guerra, vários jornais norte-americanos ostentavam prosas virulentas contra a França e a Alemanha, e ofensivas, antes de mais, da própria dignidade profissional dos jornalistas.

No Wall Street Journal, o presidente francês, Jacques Chirac, era designado por «o rato que tenta rugir», enquanto o circunspecto Washington Post chamava «untuoso» ao ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Dominique de Villepin, o mesmo que na véspera conseguira a insólita proeza de ver o seu discurso contra a intervenção no Iraque aplaudida pela maioria dos membros do Conselho de Segurança.

Segundo informação do DN, também o New York Post se associou à campanha classificando de «fuinhas» os delegados francês e alemão na ONU, numa edição que evoca na primeira página a ajuda dos EUA à Europa na II Guerra Mundial, acompanhada pela corrosiva legenda: «eles morreram pela França mas a França esqueceu-se disso». O coro foi engrossado pela National Review, para quem a França e a Alemanha representam a «aliança dos cobardes». A Humans Events não quis ficar de fora e foi ao ponto de escrever: «Da próxima vez que os franceses precisarem que tiremos as castanhas deles do lume, será ou não do nosso interesse fazê-lo? Pouca sorte, Jacques».

Não se pense que a cruzada está confinada aos EUA. Ainda no domingo, na Bélgica, um debate televisivo sobre o eventual ataque ao Iraque conseguiu a façanha de ter como principais defensores das posições norte-americanas nada mais nada menos do que três jornalistas: um americano, um britânico e um turco.

Por cá também não faltam candidatos a defensores da «voz do dono». Uns delgados, outros nem tanto.



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