Comentário

Mobilizar para a paz

Ilda Figueiredo

A ameaça da guerra foi o tema mais debatido no terceiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Apesar da nova esperança que se sente no Brasil com o novo governo de Lula, as preocupações com a ameaça de guerra estiveram sempre presentes.

Desde a abertura, com a grandiosa manifestação contra a guerra, que os organizadores referiram ter 140 mil pessoas, até ao gigantesco auditório ao ar livre onde Lula discursou perante dezenas de milhar de pessoas, passando por inúmeros debates, conferências e oficinas, a iminência da deflagração de mais uma guerra de agressão por parte do imperialismo norte-americano foi vivamente denunciado. Ali esteve também de modo particularmente presente a denúncia da agressão israelita do Governo Sharon nos territórios ocupados da Palestina.

O momento de exploração capitalista, muito complexo e perigoso, que se vive, de crescente poder do neoliberalismo, que agrava desigualdades mundiais, que endeusa o capital, desvaloriza as pessoas e recorre a tudo, incluindo à guerra, para controlar a riqueza, as matérias primas básicas, com destaque para o petróleo, é hoje uma ameaça permanente à paz. Os povos sentem a gravidade da situação, como o demonstram sondagens recentes que revelam uma enorme oposição à guerra por parte da população.

Por isso, cabe aos eleitos uma importante responsabilidade de serem porta vozes deste descontentamento popular, para exigir dos governos uma actuação em favor da paz, e não actos de seguidismo de Bush, como acontece em Portugal com a posição inadmissível do governo português. Foi o que se procurou fazer em Porto Alegre. Na Resolução aprovada no Fórum Parlamentar Mundial, um dos muitos fóruns que decorreram quase simultaneamente, e onde participaram centenas de deputados de muitos países e diversos continentes, afirma-se: «Contra a guerra é a primeira urgência. Agir sem demora para evitar a guerra no Iraque e pôr fim à ocupação militar israelita dos territórios palestinos».

Daí o apelo aos parlamentares dos países membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas para que exijam dos seus governos que se oponham firmemente à guerra e recusem o conceito de «guerra preventiva», devendo recorrer ao «veto pela paz» todos aqueles que têm o privilégio do direito de veto no seio do Conselho da ONU.

Igualmente se apelou às Nações Unidas para que desenvolvam todas as iniciativas em favor da Paz, recusando claramente a nova ordem militar mundial que a Administração Bush pretende impor com a sua doutrina de «guerra preventiva», e cujos efeitos se fazem já sentir, directa ou indirectamente, da América Latina ao Médio Oriente, da Europa à África e à Ásia. Daí as acções concretas propostas, no seguimento de outras já aprovadas, como a participação nas manifestações contra a guerra, que, um pouco por todo o mundo, se vão realizar em 15 de Fevereiro próximo, e a deslocação de delegações de parlamentares ao Iraque, em solidariedade com o povo iraquiano, e ao Conselho de Segurança da ONU para lhes exprimir oposição à guerra.

Entretanto, no Parlamento Europeu, aprovou-se, na passada semana, uma resolução que condena a guerra unilateral e apela a que se explorem todos os canais políticos e diplomáticos para garantir uma resolução pacífica do conflito, salientando a necessidade de garantir e preservar a paz e a segurança internacional.

É numa oposição total à guerra e em solidariedade com o povo iraquiano, vítima do bloqueio económico e da ameaça militar da Administração americana, que partiram para o Iraque 33 deputados do Parlamento Europeu, de quatro grupos políticos, entre os quais se incluem os dois deputados comunistas portugueses. É preciso impedir que a guerra comece. E isso só será possível com uma enorme mobilização popular que obrigue os governantes a recuar nas suas posições belicistas.



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