Sociologia e geografia da pandemia

Filipe Diniz

Todos os dias há um ponto da situação sobre a pandemia. Tantos contaminados, tantos mortos, tantos nos cuidados intensivos, tantos recuperados. Às vezes algum contexto geográfico, ou uma caracterização etária. Números.

Agora que se começam a concentrar atenções no que vem a seguir, merecerá a pena interrogar-nos sobre que outros dados são urgentes (e talvez porque tardam em chegar). O discurso oficial centra-se na economia (e na «retoma»), e compreende-se a prioridade. Mas muita da decisão necessária deveria virar-se e informar-se em outros lados: na sociologia e na geografia, e em particular na geografia urbana. E, melhor ainda, na economia política.

Transformar os números da DGS em informação sociológica e geográfica. Retirar-lhes o anonimato. A pandemia não «toca a todos» por igual. Essa informação mostrará quão desigual ela é, e porquê. E dirá que lições há a retirar, nomeadamente das condições sociais e urbanas em que se verificaram focos excepcionalmente agressivos.

O Governo «externalizou» um «plano de relançamento da economia». O autor já fez declarações a registar: é «um grande defensor dos mercados», e é «absolutamente contra visões estatizantes ou colectivistas da economia», seja o que for que isso quer dizer. Se for esse o critério geral a perspectiva é negra.

Porque a pandemia ampliou realidades intoleráveis: a invasão dos direitos sociais pelos «mercados», a extrema desigualdade no acesso à saúde, à habitação, à mobilidade (e concretamente nos transportes públicos), nas condições de trabalho e de vida, na irracional desorganização do território. Sem se identificar e dar nome a essas condições e a essa gente concreta – e ser esse o centro da questão – o «novo normal» será em tudo semelhante, para pior, ao «velho anormal».




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