Procura-se
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, eclipsou-se. Tão habituados que estávamos a ouvi-lo, com aquela sua frontalidade, a defender a democracia, os direitos humanos, os valores europeus e ocidentais fosse onde fosse (mas de preferência na China, na Rússia, na Venezuela ou em Cuba), estranhamos-lhe agora o sepulcral silêncio.
Nos seus Estados Unidos, o assassinato de (mais) um cidadão negro às mãos da polícia – num crime frio, cruel e, azar dos azares, registado em vídeo – fez estalar a revolta em todo o país e motivou solidariedades pelo mundo: em mais de uma centena de cidades norte-americanas, milhões tomaram as ruas para exigir justiça, dignidade, democracia; em muitas delas, foram recebidos a tiro, atropelados por cavalos, atacados com gás. Houve mortos, feridos e milhares de detidos, entre eles médicos, enfermeiros, jornalistas. Trump faz letra morta das leis do seu país e ameaça lançar o Exército sobre os manifestantes. Augusto nada disse.
Silêncio foi também o que o desaparecido ministro guardou para comentar a saída dos EUA da Organização Mundial de Saúde, a sangria de vidas humanas provocada pela mistura explosiva da COVID-19 com um sistema de saúde inacessível para a maioria, o fabuloso crescimento das fortunas de uns quantos ao mesmo tempo que, naquela que é ainda a maior economia do mundo, há milhões de novos desempregados e pobres. Ele, que tantas vezes clamou por intervenções humanitárias, faz-se agora de morto. E nem o facto de, no meio de toda esta convulsão, os EUA ponderarem voltar a realizar ensaios de armas nucleares motivou qualquer declaração, comunicado ou nota (por mais telegráfica que fosse) do outrora tão inflamado ministro.
O caso torna-se realmente estranho quando nem o assunto preferido de Augusto, a Venezuela, lhe suscitou reacção pública (pois lá no íntimo adivinhamos qual terá sido, sobretudo ao ver os navios iranianos a romper o bloqueio norte-americano). O falhado desembarque mercenário do início de Maio revelou os contornos de uma ilegal e tendencialmente sangrenta operação de mudança de regime, envolvendo a oposição liderada por Juan Guaidó, cartéis e redes de narcotráfico, capitalistas de várias nacionalidades e os governos da Colômbia e dos EUA. Quanto ao ministro, nem ensaiou uma desculpa esfarrapada, uma rejeição categórica, nada! Apenas ignorou.
Não se retire destas linhas a conclusão de que sentimos falta do ministro e das suas tiradas tornitruantes, dirigidas sempre aos do costume. O que efectivamente procuramos é uma política externa independente, defensora da paz, do progresso, da soberania, consagrada aliás na Constituição da República Portuguesa. Mas não é com augustos destes que lá vamos.