Borda fora
Seja porque o peso da vocação marítima se mantém como musa inspiradora do léxico nacional, seja por motivações mais instrumentais que o empreendimento salvífico da União Europeia reclama, a verdade é que salta à vista esta inundação do espaço mediático de expressões e metáforas que nos transportam mar adentro. Ao mais comum e repetido «estamos todos no mesmo barco» que por aí se propaga, ignorando substanciais distinções nessa viagem que à força toda insistem em fazer embarcar – aqueles poucos acomodados em camarote, os muitos amontoados no convés e os que em maioria estão já borda fora – somam-se agora as que tendem a apresentar a Europa como «a bóia de salvação» que lançada providencialmente a partir de Bruxelas seria condição de «não ir ao fundo».
Correndo o risco de contrariar essa corrente de diligentes comentadores, dependesse o País e o povo português disso e era naufrágio garantido. Aliás o que se percebe é que em geral estão mais apostados em salvar a União Europeia do que o País. Antecipando acusações de niilismo não se negará em absoluto valor o que vai sendo anunciado como a «resposta europeia» aos impactos da epidemia. Mas enganados seríamos se encadeados pelos milhares de milhões, ofuscado ficasse o que de mais intrincado se esconde na linearidade desses montantes, os condicionalismos que ali se desenham, os fluxos comunicantes a prazo entre o deve e haver, a que mãos retornará o que agora se disponibiliza. Para os que entusiasmados proclamam o acto de contrição da União Europeia, que imaginam o eixo franco-alemão travestido de altruísmo, que dão como certo que a União Europeia aprendeu com «erros» passados só lhes podemos dizer que continuam sem nada aprender. Não por burrice, mas por subordinação.