O Unicórnio
Era tão bom encontrar um unicórnio. Fosse azul como o do Pablo Milanes, ou de outra cor qualquer, como os da Ally Mcbeal.
Da mesma forma, eu seria o primeiro em saudar o facto de se ter – finalmente – encontrado esse extraordinário Ministro que seria simultaneamente do PS e praticante de uma política de esquerda.
O último candidato a tal maravilha chama-se Pedro Nuno Santos, e este semana apareceu a defender a nacionalização da TAP na sequência do inevitável apoio que esta terá de receber para sobreviver.
Mas qualquer caçador de unicórnios sabe que é muito fácil pintar um cavalo de azul e colar-lhe um corno na cabeça. Também no caso dos Ministros é preciso raspar a superfície mediática da coisa.
Mesmo no caso da TAP, que fez já o Ministro de um Governo que já detém a maioria do capital da mesma? Deixou o privado fazer o que quis. E sobre os outros assuntos abordados na mesma audição parlamentar? Que fez o Ministro face ao comportamento fraudulento da multinacional Yilport e o despedimento ilegal de quase todos os estivadores do Porto de Lisboa? Pôs-se do lado do patronato e da multinacional. Que fez o Ministro face à Administração dos CTT, que despediu (não renovou o contrato) trabalhadores em vez de contratar mais para poder prestar o serviço público em condições de segurança para utentes e trabalhadores? Pôs-se do lado do patronato. Que fez o Ministro quando a ANACOM criticou os CTT privados por não cumprirem nenhum dos 24 critérios de qualidade em 2019? Pôs-se do lado do patronato, criticou o regulador e negociou com o patronato um novo contrato de concessão onde vamos todos pagar para que o Grupo Champalimaud faça pior um serviço público que os CTT públicos asseguravam dando lucros ao Estado. Quando acabou o contrato com a Fertagus, e esta podia ter sido integrada na CP, que fez o Ministro? Pôs-se do lado da Barraqueiro e renegociou o prolongamento da concessão.
Pois é. Tudo mitos. Que não passam a ser reais só porque nós gostávamos que fossem reais.