Os indignados

Anabela Fino

«É inaceitável.» «É uma pouca vergonha.» «Assim não!» A ruidosa indignação, revolta, fúria, ira, raiva de Rui Rio, logo secundada pela opinião publicada de uns quantos cães de guarda do establishment e replicada por quantos, no seu profundo reaccionarismo ou infinita ignorância não atinam em distinguir emergência sanitária de emergência totalitária, é digna de registo.

E porquê? Porque numa altura em que o País tem um milhão de trabalhadores em lay-off e mais de 350 mil desempregados, o que os indigna é a ousadia da CGTP em comemorar o 1.º de Maio.

Porque numa altura em que as empresas estão a descartar os trabalhadores com vínculos precários – em 2019 havia cerca de 850 mil sem contrato de trabalho permanente, embora a esmagadora maioria ocupasse postos de trabalho permanentes – o que os revolta é o facto de a CGTP e os malvados dos comunistas, claro, não abrirem mão do direito a assinalar o dia do trabalhador.

Porque numa altura em que milhões de trabalhadores sofrem as consequências das opções políticas e económicas ditadas pela União Europeia, agora agravadas pela pandemia, o que os enfurece não são as brutais perdas nos magros salários, de um terço ou mais, de quem trabalha, mas sim que os legítimos representantes dos explorados tenham a coragem de prosseguir a luta.

Porque numa altura em que disparam os atropelos aos direitos laborais – férias forçadas, pressão para baixas médicas, pressão para licenças sem vencimento, alteração de horários de trabalho, confinamento forçado, etc., etc., etc. –, o que lhes desperta a ira é que a CGTP e os malvados dos comunistas, claro, não abdiquem de ser a voz que não se cala.

Quem ouviu os «indignados de Maio» podia pensar que o País devidamente confinado tinha vindo à janela num monumental caçarolaço de protesto. Qual quê! Foi mesmo só nos media e nas redes sociais, no velho jogo de espelhos para simular multidões.

Quem não soltou um pio quando a Altice, só para dar um exemplo, mandou trabalhadores madeirenses para casa com um corte de 50% nos vencimentos, deixando-os a receber cerca de 300 euros, não obstante ter tido no último ano 814 milhões de euros de lucros antes de impostos, só em Portugal, ficou tão enraivecido com a celebração do 1.º de Maio que contou «milhares» onde nos anos sem restrições só a custo conta «centenas».

Quem do computador não enxerga a «insegurança de transportes públicos a abarrotar, locais de trabalho em que não se garante o distanciamento físico nem a provisão pelas entidades patronais dos equipamentos de protecção individual, a que se junta a pressão e chantagem», nas palavras de CGTP, indignou-se contra a liberdade e a democracia e bolsou ódio de classe. Nada de novo. É por isso que há Maio.




Mais artigos de: Opinião

Por que ficam tão incomodados?

À boleia do actual surto epidémico, a reacção andou visivelmente assanhada estes dias. Aproveitando a circunstância, julgou chegado o momento para o ajuste de contas com o 25 de Abril e 1.º de Maio. Vai daí, disparou contra os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos em geral e dos trabalhadores em particular;...

Foi de luta que se tratou!

As acções do 1.º de Maio foram uma extraordinária demonstração de organização, mobilização, e entrega dos trabalhadores, do movimento sindical de classe e da sua grande central sindical, a CGTP/IN. As iniciativas em 24 localidades do nosso País - realizadas num exemplar e impressionante exercício de disciplina, sentido...

O Unicórnio

Era tão bom encontrar um unicórnio. Fosse azul como o do Pablo Milanes, ou de outra cor qualquer, como os da Ally Mcbeal. Da mesma forma, eu seria o primeiro em saudar o facto de se ter – finalmente – encontrado esse extraordinário Ministro que seria simultaneamente do PS e praticante de uma política de esquerda. O...

Não é comemoração, é luta!

Apesar das razões fortes para isso, a começar no seu 130.º aniversário, o que marca definitivamente o 1.º Maio deste ano não é a comemoração, mas sim a luta e a resistência.

Viva o 9 de Maio!

9 de Maio de 1945. Culminando uma imparável contra-ofensiva, o Exército Vermelho chega a Berlim. Hitler e a sua sinistra máquina de opressão estão derrotados. A bela imagem da bandeira vermelha no Reichtag ficará para sempre a assinalar o fim da II Guerra Mundial na Europa e a libertação da Humanidade do flagelo...