• Henrique Custódio

O forrobodó

A informação televisiva em Portugal tem-se degradado à velocidade de três canais de sinal aberto, a transmitir há cerca de um quarto de século.

Para quem não se lembre, a concessão de canais de televisão à iniciativa privada foi feita em nome da «liberdade de imprensa», de uma «informação plural», do «direito ao contraditório» e por aí fora, desbobinando os princípios tutelares do acto de informar com isenção e independência.

Vieram os telejornais das três estações televisivas e durante os primeiros anos as marginalidades serviam para fintar os adversários, a mais famosa das quais terá sido cada canal privado antecipar minutos aos noticiários para atrair os telespectadores, chegando-se ao ridículo de haver telejornais a começar quatro minutos antes das horas anunciadas. A introdução de três canais de Informação por cabo apenas multiplicou o quadro.

Todavia, depressa se percebeu que as notícias eram iguais em todas as estações, recorriam aos mesmos excertos gizados nos grandes centros de informação internacionais e, na produção nacional, acorriam (acorrem) aos mesmos eventos, seleccionam-nos e emitem-nos sempre dentro da grelha ideológica da direita.

Tudo isto se tornou banal e, convencidos de que a realidade é o que passa na televisão (o Rangel da SIC chegou a dizer que elegia presidentes como promovia sabonetes, tendo indubitavelmente feito escola, na televisão nacional), parte dos repórteres televisivos tornaram-se insolentes, intrusivos e abusadores, fazendo perguntas imbecis e provocatórias como se fossem os ungidos da Informação e os arautos da Verdade, a quem nada ou ninguém se pode opor ou atrever-se a contestar.

Mas o pior é a construção das notícias que mão invisível, verdadeiro deus ex machina, vai alinhando por igual nos três canais.

Deixou de haver factos a relatar, mas histórias a desenvolver – quanto mais chocantes melhor – e as notícias, na maioria, são servidas aos telespectadores como uma espécie de ficção. Quanto aos factos (ou «histórias») que estão a contar, passaram a ilustrá-los com imagens supostamente relativas ao assunto em questão, mas que raramente o são ou, a sê-lo, são-no do passado recente, sem datação das imagens e impondo-as como «actuais».

Se não houver imagens remotas a jeito para ilustrar a locução, têm o desplante de repetir ad nauseam umas sequências que muitas vezes não têm a ver directamente com o assunto.

O comentário político é do calibre de Marques Mendes e a «opinião» da direita expressa-se sempre de todos os ângulos, polvilhada aqui e ali por alguma voz não alinhada, para fingir o «pluralismo» – enfim, um forrobodó.

Eis a tal «liberdade de informação» televisiva. Mas estão enganados, se julgam que ninguém dá por isso.




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