Capital fictício, cidade fictícia

Filipe Diniz

O economista Michael Hudson define capital fictício como «aquela proporção do capital que não pode ser convertida em simultâneo em valores de uso existentes. É uma invenção que é absolutamente necessária para o crescimento do capital real, constitui o símbolo de confiança no futuro. É uma ficção necessária mas dispendiosa que mais dia menos dia desaba.» (http://michael-hudson.com/2010/07/from-marx-to-goldman-sachs-the-fictions-of-fictitious-capital1/). Como é sabido, boa parte desse capital circula no sector do imobiliário e converte-o em ficção.

Em Londres, na zona onde um incêndio recente de uma torre de habitação social sem condições de segurança provocou a morte de 80 pessoas, existem 1652 propriedades urbanas desocupadas. Na maior parte são habitações de luxo. Propriedade de oligarcas, magnatas do imobiliário e outras áreas, empresas offshore, cheiques do Dubai (Guardian, 2.08.2017). Mais de um terço estão vazias há mais de dois anos. Compreende-se porquê: não são habitações, são «activos», numa das cidades onde a especulação imobiliária é exponencial.

No outro pólo da financeirização da economia estão as famílias cuja única forma de acesso à habitação é o recurso ao crédito hipotecário. Endividadas mais do que até ao pescoço como em Portugal, onde o endividamento vai nos 120% do rendimento disponível. Uma das consequências da actual crise do capitalismo foi o desalojamento de milhares de famílias por não terem condições de continuar a pagar a dívida.

A financeirização gera vazios urbanos e corrói a cidade: no pólo dos pobres os desalojados e a habitação precária, no pólo dos ricos os que não têm habitações mas valores imobiliários (ou de branqueamento, como se quiser).

Os que julgam que atraindo a Lisboa ou ao Porto o investimento especulativo do grande capital transnacional estão a propor algum progresso estão, como acontece noutros lugares, a gerar no lugar da cidade o seu fantasma, fictício e desabitado.




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