NATO bombardeia com urânio empobrecido
A NATO lançou cerca de 3200 ataques com bombas de urânio empobrecido contra a população civil na Líbia, denunciou, este sábado, 28, o enviado especial do canal Telesur, Rolando Segura.
«Em quase 40 por cento dos ataques foram usadas munições com urânio empobrecido»
No total, o número de raides aéreos lançados pela Aliança Atlântica contra a Líbia ultrapassam já os 8400. Em quase 40 por cento destes foram usadas munições com urânio empobrecido, revelou o jornalista da cadeia de televisão sul-americana através da sua conta no Twitter.
No Iraque, por exemplo, os agressores imperialistas usaram abundantemente projecteis contendo detritos resultantes do enriquecimento daquele minério. Não é por isso estranho que o estejam a fazer também na Líbia, ainda para mais que o urânio empobrecido é muito valorizado pelos militares, já que é quase duas vezes mais denso do que o chumbo, o que aumenta a sua capacidade de perfuração.
A confirmar-se a informação veiculada por Rolando Segura, às consequências directas dos bombardeamentos imperialistas na Líbia acresce o facto de o urânio empobrecido ser uma substância radioactiva que provoca graves lesões no aparelho renal e digestivo, cancro nos pulmões e ossos, transtornos neuro-degenerativos ou más formações congénitas nos seres humanos.
A explosão de uma munição com urânio empobrecido atinge os dez mil graus centígrados e liberta poeiras altamente tóxicas e contaminantes capazes de viajar milhares de quilómetros. A dissipação dessas partículas pode durar milhões de anos, por isso os seus efeitos no meio ambiente e nos habitantes das zonas atingidas perpetuam-se por várias gerações.
«Acabar o trabalho»
Entretanto, intensificam-se os ataques a Tripoli e a toda a área urbana da capital líbia. Ainda de acordo com dados recolhidos pelo repórter da Telesur, só no sábado passado a força aérea imperialista realizou 54 bombardeamentos em cinco cidades. Pelo menos 19 pessoas morreram e mais de 130 ficaram feridas numa série de ataques efectuados nos últimos dias.
O prosseguimento da ofensiva ocorre mesmo quando a União Africana reitera o apelo para o estabelecimento de um cessar-fogo no território. O governo da Líbia acompanha o pedido e insiste junto das Nações Unidas para que se promova o diálogo e se calem as armas. Em mais um sinal de boa-fé, o executivo liderado por Muammar Kahdafi continuou a libertação de dezenas de prisioneiros rebeldes num processo mediado por chefes tribais do país norte-africano.
Quem não responde aos apelos de pacificação são os chefes imperialistas. Ainda no final da semana passada, Barack Obama e Nicolás Sarkozy, presidentes dos EUA e da Franca, respectivamente, insistiram que partilham «a mesma análise de que Kahdafi deve abandonar o poder», e, para isso, a NATO deve «acabar o trabalho».
Fundos soberanos Líbios
«Desfalque perfeito»
«É impossível saber se houve uma intencionalidade económica na operação contra Kahdafi. O que é inegável é que a sua queda daria imenso jeito aos bancos ocidentais. Seria o desfalque perfeito», disse um especialista norte-americano ouvido pela Lusa.
A agência de notícias portuguesa pediu a opinião a vários peritos em fluxos e branqueamentos de capitais e investigou o que aconteceria aos fundos soberanos da Líbia caso fosse derrubado o chefe do governo do país.
A conclusão é que a consequência seria o desaparecimento dos montantes pertencentes ao povo, já que «Kahdafi deixou de estar em condições práticas e políticas para recuperar os fundos e fazer reverter o processo de investimentos no Ocidente».
Na nota publicada dia 26, um outro consultor testemunhou à Lusa que os produtos financeiros nos quais a Líbia vinha aplicando os respectivos fundos tornam «muito difícil ou impossível» a sua detecção.
«A complexidade dos produtos financeiros e o tipo de operações, com sucessivos níveis de despiste, fazem com que apenas quem faz a operação saiba da sua existência», disse.
No mesmo sentido, um operador financeiro directamente ligado aos negócios envolvendo a Autoridade Líbia de Investimento (LIA, na sigla em inglês), sublinhou à Lusa que «em relação aos produtos [financeiros] derivados, de grande complexidade, a situação é que nem sequer a fonte do investimento conhece exactamente o que foi feito do seu capital».
A LIA investiu milhões nos portugueses BCP, BES, e na francesa Société Générale (SG), número um mundial em investimentos que, na sequência da crise capitalista, passaram a ser apelidados de «lixo» ou «activos tóxicos».
Ainda de acordo com a Lusa, que cita um quadro especialista em sanções respectivas a transacções financeiras, «podem andar atrás do dinheiro até à eternidade. Não apenas as autoridades internacionais, mas também, evidentemente, o dono do dinheiro».
«Se o dono do dinheiro desaparecer, o dinheiro fica sem dono, por assim dizer, porque na origem esteve um investimento que politicamente foi feito em segredo. É essa a situação em que está Kahdafi», sintetizou aquela fonte.
A Lusa dá como exemplo o caso da Nigéria para antever o que pode vir a suceder aos fundos soberanos da Líbia. Quando Sani Abacha morreu, os montantes permaneceram nos bancos do Luxemburgo, que desde 1998 beneficiam com a permanência destes activos na sua carteira.