Imperialismo semeia morte
Os bombardeamentos da NATO no Afeganistão contra alvos civis vitimaram nos últimos dias dezenas de mulheres, crianças e cidadãos inocentes.
Ataques da NATO contra alvos civis causam indignação e repúdio
Segundo as autoridades afegãs, um dos bombardeamentos mortíferos teve lugar no distrito de Nawzad, província de Helmand, no sábado, depois de um grupo de guerrilheiros ter atacado soldados da NATO, a Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF).
A ISAF pediu então apoio aéreo e os aviões bombardearam implacavelmente áreas residenciais, a meio da noite. O governador da província, Jamaludin Badr, afirmou que mais 70 guerrilheiros foram eliminados. Por seu lado, familiares enlutados levaram 12 corpos de crianças e de duas mulheres em camiões até à capital distrital, Lashkar Gah, como prova dos ataques a alvos civis.
Já na semana passada, dia 26, um outro bombardeamento da ISAF na provincial Oriental de Nuristan matou mais 20 civis e 22 polícias afegãos. Segundo o governador provincial, «os polícias morreram por disparos fratricidas e os civis morreram ao serem confundidos com talibãs, que envergavam vestes civis e se haviam refugiado em habitações».
Mas apesar das explicações, a intervenção estrangeira e as constantes baixas «colaterais» suscitam um repúdio crescente entre a população civil.
Um outro ataque, que causou quatro mortos, esteve na origem das manifestações de protesto na cidade de Talocan, em 18 e 19 de Maio, que foram violentamente reprimidas, saldando-se em 15 mortos e vários feridos.
Em Fevereiro, uma operação conjunta de forças internacionais e afegãs na província de Kunar deixou para trás 64 mortos civis.
Uma «força de ocupação»
A situação chegou a tal ponto que o próprio presidente afegão, Hamid Karzai, veio a público contestar as práticas da NATO. Em conferência de imprensa, na terça-feira, Karzai declarou que «se continuarem a bombardear casas afegãs quando o governo os proíbe, a sua presença será vista, não como uma força da guerra contra o terrorismo, mas como uma força de ocupação». A partir «deste momento, os ataques aéreos a casas civis não serão permitidos», salientou Karzai.
No domingo, o presidente afegão qualificou como «um grave erro» e «um assassínio» o ataque aéreo de sábado e lançou um «último aviso» às forças da NATO, para que cessem as suas operações «unilaterais».
«Temos dito em repetidas ocasiões aos Estados Unidos e à NATO que as suas operações unilaterais e inúteis causam a morte de afegãos inocentes e que tais operações violam os valores humanos e morais, mas parece que não nos escutam», afirmou num comunicado, com um tom duro pouco habitual.
Reconhecendo as acusações, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) emitiu na segunda-feira um comunicado no qual pede «desculpas pela morte de civis (...) no incidente no distrito de Nawzad, em Helmand» e promete «prevenir no futuro este tipo de incidentes».
O atoleiro em que se transformou o Afeganistão para as forças ocidentais faz com que alguns líderes comecem a distanciar-se e a preparar o terreno para uma eventual retirada. Tal é certamente o sentido das palavras de Stephen Harper, primeiro-ministro canadiano, durante a sua deslocação ao teatro de guerra na segunda-feira.
Segundo disse «o Afeganistão continua a ser um local violento, perigoso para os seus cidadãos», pelo que é preciso «trabalhar para melhorar o seu destino». Mas, prosseguiu, «este país já não representa uma fonte de terrorismo mundial», o que é «um feito notável».