O plano e a prática
Muito se falou, nos últimos dias, do plano iraniano para assassinar o presidente norte-americano, Donald Trump. Nas televisões, nos intervalos permitidos pelo Mundial, a pré-época da bola, os incêndios e uma ou outra questão mais dada a “breaking news”, foram muitos os comentadores e analistas que nos falaram do famigerado plano, típico de gente fanática e radicalizada, claro está. Alguns fizeram mesmo questão de lembrar que no recente funeral do aiatola Ali Khamenei havia cartazes escritos à mão a reivindicar a morte de Trump, de Netanyahu, de Israel e da própria “América”. Terrível!
Mas houve também aquilo de que poucos falaram. Por exemplo, que o dito plano foi “descoberto” pelos serviços secretos israelitas, os mesmos que querem a todo o custo evitar qualquer desescalada da guerra no Médio Oriente. Pormenor insignificante, certamente. Mas há outra questão a que não foi dada grande importância na análise do dito plano iraniano. O facto de, ao contrário de Trump, o líder supremo do Irão, Ali Khamenei, ter sido efectivamente assassinado pelos EUA e por Israel. Com plano ou sem ele.
E mais: para além de Khamenei, foram também assassinados Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional; Esmail Khatib, ministro dos serviços de informações; Abdolrahim Moussavi, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; Aziz Nasirzadeh, ministro da Defesa; Mohammad Pakpour, chefe da Guarda Revolucionária; Ali Shamkhani, conselheiro do Líder Supremo e secretário do Conselho de Defesa, a que há que somar muitos outros responsáveis políticos e militares – e milhares de civis. Já em 2020, no primeiro mandato de Trump, os EUA tinham assassinado o general iraniano Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária que se destacou no combate contra a Al-Qaeda e o “Estado Islâmico” no Iraque e na Síria, tendo desempenhado um papel preponderante na libertação de Alepo, em Dezembro de 2016.
Tanto haveria para analisar… O porquê de assassinar Soleimani e deixar campo aberto aos terroristas que se jurava combater (e que agora, travestidos de líderes “legítimos”, são recebidos na própria Casa Branca), a capacidade de defesa e retaliação demonstrada pelo Irão mesmo após o desaparecimento súbito de grande parte da sua liderança ou o facto indesmentível de que são os EUA e Israel – e não o Irão – quem recorre com frequência ao assassinato programado, incluindo de dirigentes de outros Estados. Não é de hoje nem é da administração Trump: em 2013, era presidente Barack Obama, e foi revelada a existência da “The Disposition Matrix”, uma lista de alvos a abater por suspeita – atente-se na palavra “suspeita” – de terrorismo, expressão que (como bem sabemos) dá para tudo.
Resta o “plano” para nos entreter. Exista ou não. Tenha ou não qualquer viabilidade. Sempre serve para que não se fale do resto.




