Da ambição maior ao mal menor
A propósito do seu Congresso este fim-de-semana, o pensamento do Livre mereceu entusiasmado escrutínio por parte da comunicação social, permitindo-nos ver um pouco para lá das preleções de Rui Tavares, presença até agora omnipresente.
Jorge Pinto (JP), agora eleito como um dos principais dirigentes, antecipava ao Expresso que «o resto da Esquerda tem sido pouco ambiciosa», anunciando, a contrário, que «o Livre vai ser», pelos vistos criticando, de uma penada só, a pouca audácia da direcção cessante.
Para dar sinal dessa nova disponibilidade para correr riscos, para além da sofreguidão evidente nas declarações que indicam que querem ir para o «poder já no próximo ciclo eleitoral» – palavras ainda de JP –, a outra das suas principais dirigentes, a co-porta voz e deputada Isabel Mendes Lopes (IML), em discurso de encerramento da reunião magna, que partilhou com aquele, reafirmou uma ideia que tem muito que se lhe diga.
Dizia IML que, se o PSD decidir avançar com a Revisão Constitucional com o Chega, o PS deveria recusar-se a aprovar o Orçamento do Estado. Ora, dessas palavras, só se pode concluir que o próprio Livre estaria disponível para fazer o mesmo, optando não pela linha da ambição maior de derrotar a política desastrosa do PSD, mas pela do mal menor de a Constituição em vez de ser, uma vez mais, mutilada pela conjugação dos votos dos deputados do PSD e do Chega, o ser pela mão de arranjos entre PSD e PS, de que, aliás, o País já tem experiência sobeja e, infelizmente, má memória.
Assim se percebe que na ambição de JP, as linhas vermelhas (do PS e, presumo eu, do Livre) não têm de ser os salários e as pensões dignas, ou a defesa dos serviços públicos (do Serviço Nacional de Saúde à Escola Pública), o direito à habitação, a cultura ou o investimento público.
Tenho um segredo de polichinelo para JP e para a direcção do Livre. Para ambição isto é tão poucochinho que o PS é bem capaz de conviver muito bem com essas linhas, como fez no ano passado quando viabilizou o OE do Governo PSD/CDS e temo que até o PSD e o CDS as possam aceitar. Em boa verdade, nem a defesa da Constituição, cuja revisão, no actual quadro político, só poderia dar asneira, pode ser moeda de troca para coisa nenhuma, nem nenhum Orçamento que saia da pena deste Governo pode ser aprovado por quem quer que seja.




