Não é enigma, é atentado

Jorge Cordeiro

Não se soubesse ao que este Governo, e os interesses que ele representa, anda e ainda se poderia conceder que aquilo que apresentou como objectivo com as suas propostas sobre arrendamento habitacional não passava de um exercício, de mau gosto, a meio caminho entre a manipulação e o enigma. Pretender vender medidas concebidas para promover despejos como solução para disponibilizar habitação só não é risível porque têm associadas uma dimensão dramática na vida de centenas de milhares de pessoas.

Não se trata só de, como em todos os enigmas, corresponder a um argumento de difícil compreensão, cuja dimensão ambígua ou obscura desafia a lógica de qualquer cidadão racional. Trata-se sobretudo de, desafiando a lógica e atentando contra a inteligência de terceiros, tentar sustentar uma decisão na base de justificações que entre o cinismo e a desumanidade põe a nu, para lá do juízo moral que estes conceitos encerram, sobretudo a natureza deste Governo e da expressão política daquilo que o capitalismo e o mais desbragado liberalismo representam.

O que ali se consubstancia é um exercício mais, a acrescentar a outros já em vigor, inserido na dinâmica dominante que hipoteca direitos à promoção do lucro e da especulação, que em nome de uma cínica preocupação com a habitação o que faz é promover despejos, fragilizar ao extremo os direitos de inquilinos, tornar inacessível para muitos o acesso a novos contratos, alimentar a espiral especulativa.

Só pode ser recebida com desprezo essa inventada “liberdade contratual entre as partes” que estas medidas promoveriam, que só pode ser traduzida objectiva e literalmente na liberdade dos proprietários de despejar e na liberdade do inquilino de ser posto na rua. Uma outra versão dessa chamada “liberdade de escolha” que o mais desumano liberalismo encerra enquanto antecâmara para negar direitos a todos em nome da posse de alguns poucos.

 



Mais artigos de: Opinião

O plano e a prática

Muito se falou, nos últimos dias, do plano iraniano para assassinar o presidente norte-americano, Donald Trump. Nas televisões, nos intervalos permitidos pelo Mundial, a pré-época da bola, os incêndios e uma ou outra questão mais dada a “breaking news”, foram muitos os comentadores e analistas que nos falaram do...

Parábola de cegos

Lusa A Cimeira da NATO, realizada em Ancara a 7 e 8 de Julho, constituiu um autêntico conclave de exaltação do militarismo e da guerra, apesar das contradições, desavenças e dificuldades evidenciadas ou silenciadas. No seu...

Unir para libertar

A Cimeira de Ancara confirmou que a NATO apenas tem para oferecer aos povos militarismo e guerra. Encaixando mais uns insultos, os seus membros aceitaram as exigências do ‘paizinho’ Trump (a quem o Secretário-Geral da NATO chama o “líder do mundo livre”) para aumentar drasticamente as despesas militares. Juraram despejar...

Da ambição maior ao mal menor

A propósito do seu Congresso este fim-de-semana, o pensamento do Livre mereceu entusiasmado escrutínio por parte da comunicação social, permitindo-nos ver um pouco para lá das preleções de Rui Tavares, presença até agora omnipresente. Jorge Pinto (JP), agora eleito como um dos principais dirigentes, antecipava ao...

SoNato

A ideia inicial era escrever sobre o que o jornal da Sonae publicava (8.07.26) a propósito da cimeira da NATO em Ancara: editorial, artigo de opinião, duas páginas sobre a “corrida ao ouro” do negócio do armamento. O acrónimo era Sonae+Nato. Ali há genuína devoção pela sinistra organização, agora metida em alguns...