Odes à guerra

Jorge Cordeiro

Ignoremos a dimensão poética associada à definição do que as “ode” representam com a sua estrutura simétrica e métrica e descortinemos apenas, nestes tempos apologéticos da guerra, a dimensão que em regra este tipo de expressão literária contém de exaltação e de enaltecimento emocional para se poder perceber o que por aí abunda na dinâmica e conteúdo noticiosos de deslumbramento pela guerra, morte e destruição.

A naturalização da guerra vendida à boleia da informação, a volúpia posta no relato dos conflitos, o gáudio indisfarçado sobre a perícia revelada no assassinato de dirigente de países terceiros, o enaltecimento do profissionalismo exibido no sequestro de um adversário, o eufórico registo sobre a precisão deste ou daquele bombardeamento, a elogiosa descrição do poder de destruição desta ou daquela arma, o idolatrar da eficiência letal de certos serviços secretos, são parte dessa exacerbação em regra dirigida para sustentar os projectos agressivos e de hegemonização imperialista que os EUA e seus apoiantes prosseguem.

Uma abordagem imbuída de um doentio prazer, de desprezo pela vida e pelo sofrimento humano, invariavelmente sustentado numa duplicidade de critérios em que o que é elogiado nuns é condenado noutros, acompanhado por um alinhamento político rasteiro e acrítico.

É neste caldo que navega a pequenez dos que, como os governantes nacionais, no seu papel dos peões menores no tabuleiro norte-americano, são capaz de identificar intenções benignas do sequestro de Maduro, apressarem-se a condenar não a agressão dos EUA e de Israel mas os “ataques” do Irão, a não verem no sul do Líbano qualquer invasão condenável, a recordarem a montagem de Bucha sem que se lhes ouça uma palavra sobre o assassinato de 150 meninas iranianas por um míssil norte-americano, admitirem que Portugal a partir das Lajes seja usado como mera fazenda do belicismo dos EUA. Ainda que bem acompanhados por outros, como ainda agora se ouviu de uma deputada do PS do Parlamento Europeu, nesse lamento pela não aprovação de 60 mil milhões para compra de armas para a Ucrânia, no seu dizer, indispensáveis para alcançar um cessar-fogo!

 



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