Máfia

Filipe Diniz

Em 1942 os EUA tinham preocupações com a segurança do porto de Nova Iorque e de toda a actividade em seu torno: dos estaleiros de construção naval à frota pesqueira, das docas à lota e venda a retalho. Precisavam da confiança e da mobilização dos trabalhadores para o esforço de guerra. O que fizeram foi recorrer à Máfia, ao chefe local Joe Lanza. Foi preciso o ámen dos chefes dele, Meyer Lansky, Joe Adonis, Willie Moretti, Frank Costello. Mas estes tiveram de ir ao chefe dos chefes, Lucky Luciano, que comandava da cela da penitenciária onde cumpria pena.

Não podia ser de outra forma: no processo de desmantelamento de tudo o que era organização dos trabalhadores, intensificado perante as grandes lutas de 1934, todo o controlo e repressão fora entregue à Máfia, que o assumira com os seus meios próprios: violência, corrupção, expulsão de quadros defensores dos trabalhadores, assassínio se necessário. Tudo funcionou. Se surgiam problemas, Luciano era informado e o problema desaparecia. Um exemplo que concentra a história do movimento dos trabalhadores nos EUA.

Entre os direitos do trabalho e o crime organizado (e organizações fascistas que, como o Ku Klux Klan, também desempenharam nisto um papel), a grande burguesia EUA fez a escolha. E não foi apenas na destruição do movimento operário organizado que a fez. A porosidade entre os dois mundos tornou-se aparentemente quase institucional.

Talvez se verifique até alguma inversão. Enquanto a Máfia terá vindo a preferir minimizar a violência aberta para se focar no crime de colarinho branco e na infiltração em profundidade na economia (o neoliberalismo dá-lhe todas as condições), o imperialismo EUA recorre extensamente aos mais mafiosos métodos de burla, de chantagem, de extorsão, de agressão e bárbara violência directa e sem limites. Está à vista: o mundo de cima fez seus os métodos do submundo.

171 meninas iranianas mortas à bomba numa escola.



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