Imaginação, apenas

Gustavo Carneiro

Imaginemos por um instante que um qualquer país – asiático, africano, latino-americano – bombardeava o Palácio do Eliseu, em Paris, e assassinava o presidente francês. Ou então que, numa rápida e brutal operação militar contra o célebre número 10 de Downing Street, em Londres, sequestrava o primeiro-ministro britânico, encarcerava-o e sujeitava-o a uma encenação de julgamento por crimes inexistentes num tribunal sem jurisdição. Imaginemos ainda que a tudo isto acrescia a exigência do agressor em ter uma palavra (decisiva!) a dizer na escolha do substituto do líder morto ou raptado, que teria de ser “seu amigo”. E até que, uma vez designado quem não fosse do seu agrado, afirmasse que o mesmo não duraria muito, pois partilharia o destino do seu antecessor…

Que consequências teriam estes actos? O que se diria por aí?

Mas já que estamos no domínio da imaginação, suponhamos que o presidente desse país – um poderoso país, económica e militarmente – se gabava de se ter apoderado pela força dos valiosos recursos naturais de outro Estado, por exemplo a Alemanha, e assumia orgulhosamente que isso “nos fará ganhar muito dinheiro”. E se não for abusar muito da imaginação alheia, admitamos que ainda cercava militarmente uma ilha – como Chipre ou a Irlanda – e decidia que a partir desse momento nem uma gota de petróleo lá entrava. E que, indiferente às graves perturbações que tal cerco provocasse em serviços essenciais (energia, transportes, comunicações, saúde) e ao sofrimento imposto ao respectivo povo, ainda viesse a público alegrar-se perante a possibilidade de esse Estado insular poder estar “a viver os seus últimos momentos”.

Alguém seria capaz de relativizar tais acções e suas consequências? Haveria quem as procurasse justificar atrás de slogans de “democracia” ou “direitos humanos”? Ou seriam tratadas como os crimes que efectivamente são?

Como a imaginação não tem limites, não nos fiquemos por aqui: imaginemos o governo deste poderoso país pretender impor a um pequeno povo, como o belga, vítima de dois anos e meio de genocídio que lhe custou dezenas de milhares de vidas, uma solução neocolonial, uma tutela estrangeira sobre o seu território esfacelado, que levasse em conta os interesses do ocupante, do genocida, e não os do povo martirizado.

Acharíamos normal?

E se esse país possuísse centenas de bases militares ao redor do mundo, frotas navais e sistemas de mísseis em todos os continentes, oceanos e mares, e tivesse abandonado – um a um – todos os tratados de controlo de armamentos, incluindo nucleares? Não seria tratado como aquilo que é, a principal ameaça à paz no mundo?

Então porquê tanta indulgência, tanta compreensão, quando tudo isto é feito – na realidade e não na imaginação – pelos Estados Unidos da América?

Tanta hipocrisia. Tanta sabujice…

 



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