Submissão e guerra

Cristina Cardoso

Israel visa a “ocupação de facto” da Palestina

A acção do imperialismo no Médio Oriente prossegue. Israel continua a sua política de genocídio e ocupação contra o povo palestiniano, assim como a agressão ao Líbano e à Síria e a ocupação de parte dos seus territórios. O acordo de cessar-fogo alcançado em Outubro de 2025 tem sido sistematicamente violado por Israel, com bombardeamentos em várias áreas da Faixa de Gaza e a continuação do condicionamento à entrada de ajuda humanitária. Paralelamente, a situação na Cisjordânia agravou-se significativamente com a multiplicação dos ataques de colonos, os bombardeamentos e as recentes decisões de Israel em avançar com planos de colonatos e registo de terras na Cisjordânia ocupada como se fossem “propriedade do Estado”. Mais uma flagrante violação do direito internacional, representando uma “anexação de facto” que visa obstaculizar a concretização do Estado da Palestina.

O chamado “Conselho de Paz”, fabricado pela administração de Trump e que teve a sua primeira reunião no passado dia 19, pretende constituir uma “pedra” do imperialismo norte-americano não só sobre as resoluções da ONU relativamente à Palestina, como sobre os princípios do direito internacional e a própria ONU. Os planos para a reconstrução da Faixa de Gaza (apresentados por Jared Kushner em Davos no mês passado – resorts, plataforma de petróleo e gás off-shore, zonas industriais), como para a criação de uma chamada “Força de Estabilização Internacional”, com cerca de 20 mil soldados, com o anunciado propósito de desarmar a resistência palestiniana, só confirmam os intentos dos EUA de colonização da Palestina, em articulação com Israel.

No “Conselho de Paz” os EUA não falaram só de Gaza. Para além de terem apontado outras regiões como alvo da sua interferência, foi plataforma para a administração norte-americana intensificar a pressão e chantagem militares sobre o Irão, num momento em que decorrem negociações. O significativo dispositivo militar que os EUA têm deslocado para a região, em que se incluem “um maior movimento de aeronaves militares dos EUA” na Bases das Lages, nos Açores, insere-se na estratégia de imposição pela força dos ditames do imperialismo norte-americano.

Os EUA, que têm investido na desestabilização do Irão, com sanções, ingerência e agressão militar – como se verificou em Junho de 2025 e em Janeiro passado – pretendem impor um acordo nuclear que inclui a proibição do enriquecimento de urânio para fins pacíficos (como os energéticos), limites de mísseis de longo alcance e o fim do apoio do Irão às forças de resistência na região. O Irão já deixou claro que não aceitará a imposição de um “acordo” que ponha em causa os seus interesses nacionais, e exige o fim das sanções, reiterando ainda o direito de retaliar perante qualquer agressão militar.

Perante estes desenvolvimentos, o Governo português reafirma a sua submissão aos EUA. As vergonhosas declarações de Paulo Rangel sobre o uso da Base das Lages para movimentações de aviões militares dos EUA – “autorizações tácitas, que são dadas com um prazo relativamente curto” – está ao nível das suas declarações sobre as “intenções benignas” da agressão à Venezuela. Talvez o Governo tenha a intenção de arrastar o País para mais uma agressão militar, à semelhança do que fez Durão Barroso em relação à guerra no Iraque, em claro confronto com a Constituição da República Portuguesa.

 



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