O tom e o tema
Há muito que é evidente o papel das grandes cadeias mediáticas na defesa da ideologia e dos interesses do grande capital e do imperialismo: nos assuntos que escolhem abordar e na forma como o fazem, nos temas que silenciam, nas figuras que promovem, nos (anti) valores que replicam. Isto é válido para questões nacionais, das privatizações ao desmantelamento do Estado, do pacote laboral ao insuflar da extrema-direita, como – talvez ainda com maior expressão – em matérias internacionais.
Veja-se a Palestina, que praticamente desapareceu das televisões e dos jornais desde o celebrar do cessar-fogo, violado diariamente pelas tropas israelitas, que continuam a matar palestinianos (mais de 600 desde Outubro) a tiro, à bomba ou privando-os da ajuda humanitária ou da assistência médica de que precisam para sobreviver.
Ainda há dias foi assassinada a tiro por um drone na Faixa de Gaza uma criança de 12 anos, mais uma, alegadamente por ter ultrapassado a “linha amarela” que divide a ocupação “ilegítima” daquele território de outra, que nos garantem ser “legítima”. Ultrapassou? Não ultrapassou? Que importa? É a vida de uma criança brutalmente interrompida por uma força ocupante, que em dois anos e meio, com esta ou outra desculpa, já matou mais de 20 mil menores. Porém, e apesar de todos os massacres, dos bombardeamentos de bairros, hospitais, escolas e abrigos, da ocupação de terras e da demolição de casas, das prisões arbitrárias e das humilhações diárias, nunca ouviremos a palavra “terrorista” dirigida contra o Estado de Israel – não da parte dos “respeitáveis” média ocidentais. Essa designação fica sempre para os outros, os oprimidos, os que resistem…
A “crise” de Cuba é outro exemplo: mostra-se os efeitos e esconde-se a causa. O bloqueio, das poucas vezes que é referido, surge como um pormenor e nunca como aquilo que é, a principal causa dos desequilíbrios económicos de Cuba. Quantos países funcionariam com um cerco quase total à entrada de combustíveis? Sem peças para máquinas? Sem medicamentos elementares? Portugal não, certamente… Mas lá, claro, a culpa é do “socialismo”.
O tratamento mediático do recente discurso de Marco Rubio na Conferência de Munique revela bem o que atrás se disse: com a tónica colocada no tom conciliador do Secretário de Estado norte-americano em comparação com o utilizado, no ano passado, pelo vice-presidente JD Vance (o que mereceu aplausos dos dirigentes presentes e horas de embevecido comentário nas televisões, rádios e jornais), não sobrou tempo nem espaço para referir que Rubio elogiou os impérios coloniais, lamentou o seu desaparecimento na sequência da vitória sobre o nazi-fascismo, em 1945, e apelou à recolonização do mundo pelo imperialismo “Ocidental”.
Chamam-lhe critérios jornalísticos…




