Guia para ver TV*
Não é novidade, mas temos de estar atentos. Na narrativa do imperialismo, cada palavrinha conta e as tendências não surgem por acaso. Horas e horas de noticiários, debates e comentários sobre a situação na Venezuela, como antes acerca do genocídio na Palestina ou da guerra na Ucrânia, permitem-nos tirar o azimute ao modo como nos querem pôr a falar – e, sobretudo, a pensar. Alguns exemplos.
1. Nicolas Maduro foi “capturado”. Esta expressão, repetida à exaustão, oculta um facto essencial: só há captura com um mandado válido – e não havia, nem há, qualquer mandado de captura internacional pelo Presidente da República Bolivariana da Venezuela (mas há, por exemplo, por Benjamin Netanyahu). Nicolas Maduro e Cília Flores foram sequestrados ilegal e brutalmente e a comparência num tribunal sem jurisdição e todo o processo “judicial” que se seguirá não passam de fachada. E é revelador que a principal “acusação”, de que Maduro liderava o (comprovadamente inexistente) Cartel de los Soles, não tenha sobrevivido sequer à primeira audiência…
2. É Trump que manda na Venezuela – diz o próprio e a generalidade das notícias, análises e comentários assume-o sem confirmação, contraditório ou cruzamento de fontes, como manda(ria)m as regras. As declarações das autoridades venezuelanas, que contam outra história – de cerco, de agressão, mas também de resistência sob alta pressão – não têm espaço nos nossos média.
3. Os navios sancionados. Nas últimas semanas, a marinha de guerra norte-americana aprisionou diversos petroleiros junto à costa venezuelana. Trata-se, dizem-nos, de embarcações abrangidas pelas “sanções internacionais”, designação suave e enganadora para as medidas coercivas unilaterais – num total de 1081 – impostas sobretudo pelos EUA, mas também pela União Europeia, ilegais à luz do direito internacional. Estas medidas são expressão de uma longa e dura guerra económica imposta ao país sul-americano, que juntamente com a baixa do preço do petróleo verificada desde 2014 são responsáveis pelos problemas económicos e sociais que os mesmos EUA e UE acusam o governo bolivariano de provocar.
4. O regresso das petrolíferas norte-americanas. Deposto Maduro, as empresas petrolíferas dos EUA vão poder regressar à Venezuela, repetem-nos moderadores, analistas e comentadores. “Esquecem-se” todos de um pormenor: à excepção da Chevron, a quem foi concedida pelas autoridades norte-americanas uma autorização especial para permanecer na Venezuela, as restantes grandes empresas do sector petrolífero foram impedidas de fazer negócio com o país sul-americano, como parte da estratégia de cerco económico.
Não nos deixemos enganar, pois a luta anti-imperialista também se trava nas mentes de cada um de nós.
* também serve “ouvir rádio” e “ler jornais”




