A “inspiração de Ronaldo”
Montenegro na AR invocou em seu favor e da AD a “inspiração de Cristiano Ronaldo”. É claro que se tratou de mais um momento da “futebolização” deslizante e crescente da vida política, isto é, da politiquice e superficialidade de alguns. O impacto cada vez maior do futebol – do jogo, da competição, da “cultura”, da economia, da actividade criminógena, da desinformação – na vida em sociedade, é uma realidade, que nasce da qualidade e sucesso desportivo, mas medra brilhantemente no negócio global, de lucros obscenos e outros ganhos absurdos, que traduzem a gigantesca dimensão da sua perversão pelo capitalismo.
A frase sensacionalista sobre a “inspiração de Ronaldo” foi um soundbite, um slogan no discurso de ocasião do primeiro-ministro, para esconder na “bolha mediática” do costume que nada tinha para responder às acusações então sustentadas pelo PCP – que a política do Governo da AD para a Saúde é concretizar a destruição do SNS, para o Ensino Superior é a elitização e a discriminação, para os trabalhadores é a destruição de direitos e anseios, etc. – e pediu aos portugueses para “acreditar”, talvez no “cromo da bola”.
Para os candidatos e partidos do “consenso neoliberal” – PSD, CDS, PS, Ch e IL –, da política de direita e da agenda da extrema-direita, o que importa é o serviço do capital financeiro, a concentração e centralização de riqueza, e as negociatas de poder económico e político que o suportam em cada momento. O que sobra resume-se a comunicação manipulada, instrumentos que permitam levar a água ao moinho dos mandantes, para quem a verdade só atrapalha, quando a fake, a desinformação exaustiva e o soundbite resultam muito mais eficazes.
Esta “inspiração de Ronaldo” não resulta da transpiração do ainda futebolista da selecção, tem muito mais a ver com a sua presença no banquete e a referência que Trump lhe fez (quem pagou a quem?). Montenegro pôs-se no mesmo patamar, serviu-se do soundbite, mas ao mesmo tempo foi tratando de um novo “tráfico de influências”. Ronaldo é hoje o maior accionista individual (30%) da Media Livre (Cofina, C. Manhã, CMTV, Record, Sábado), em breve não será jogador da bola mas um grande empresário dos média. Percebe-se assim melhor a ideia de Montenegro de “acreditar” no futuro?!




