Um padrão

Filipe Diniz

Alguém tratava recentemente Trump de “Godzilla”. Tem piada, mas insere-se na linha que tende a tratar esta administração EUA como uma espécie de mutação. Não é.

Há suficiente informação pública quantitativa dos quase incontáveis antecedentes de arbitrária brutalidade do imperialismo EUA. Há que dar igual atenção aos seus aspectos qualitativos: todos partilham das mesmas sórdidas características. E repetem-nas. Venezuela nada tem de novidade, é a quase mecânica repetição de um padrão.

Veja-se um exemplo, Nicarágua. Após décadas de ingerência, ocupação, apoio à sanguinária ditadura Somoza, a acção EUA recrudesce contra a Revolução Sandinista. Aliás, a vítima está novamente sob ameaça.

Quando em 1986 a Nicarágua apresenta no Tribunal Penal Internacional um processo contra os EUA por Actividades Militares e Paramilitares contra o país, a acusação enuncia o manual: 1. Violação da soberania da Nicarágua por meio de: ataques armados por terra, mar e ar; incursões em águas territoriais nicaraguenses; violação do espaço aéreo nicaraguense; esforços, por meios directos e indirectos, de coagir e intimidar o governo da Nicarágua; 2. Uso e ameaça de uso da força contra a Nicarágua; 3. Intervenção em assuntos internos da Nicarágua; 4. Violar a liberdade da navegação no mar alto e interceptar comércio marítimo pacífico; 5. Matar, ferir e raptar cidadãos nicaraguenses.

O TPI decide pela condenação dos EUA. A sentença, arrasadora, tal como vários importantes testemunhos, pode ser lida em https://en.wikipedia.org/wiki/Nicaragua_v._United_States.

Tudo igual. Poderá alguém honestamente apresentar o actual desencabrestado “Godzilla” como excepção? Os que o antecederam fizeram o mesmo. Há até por cá alguma gente de extrema-direita chocada com a embirração com Trump por parte de muitos que não só nunca objectaram antes como em muitos casos alinharam com todas as agressões EUA.

E não será que têm razão?



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