O cartel do petróleo

Gustavo Carneiro

Desde finais de Agosto que os EUA vêm concentrando no Mar das Caraíbas, junto às costas da Venezuela, um impressionante dispositivo militar, o maior desde a agressão ao Iraque, em 2003: milhares de efectivos, caças F35, bombardeiros B52, drones MQ-9, um submarino nuclear e diversos navios, entre os quais aquele que é considerado o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, com 340 metros de comprimento (é maior do que a Torre Eiffel!!!!) e capacidade para transportar cerca de 90 aeronaves. Desde essa altura que a invasão da Venezuela, segundo palavras do próprio Trump, está “iminente”.

O pretexto (tem sempre de haver um, lembram-se das “armas de destruição massiva”?) começou por ser o “combate ao narcotráfico”: segundo a narrativa do imperialismo, o presidente venezuelano lidera o “Cartel de los Soles”, considerado pelos EUA uma “organização terrorista” responsável pelo trânsito de droga para o país. A esta lente, a República Bolivariana da Venezuela não passa de um “narco-Estado” e os EUA até colocaram um preço pela cabeça de Nicolas Maduro, ao estilo “wanted” dos filmes de cowboys. Se é verdade que a generalidade dos média não mostrou grande entusiasmo com esta tese, também é certo que pouco ou nada fez para a desmontar: colocar um “alegadamente” antes de replicar as acusações contra a liderança venezuelana é, no mínimo, preguiçoso – e, no máximo, cúmplice.

Bastava consultar o Relatório Mundial sobre Drogas de 2025, da agência especializada das Nações Unidas, para se ficar a saber que a Venezuela é um «território livre do cultivo de folha de coca, canábis e cultivos similares» e que apenas 5% da droga oriunda da Colômbia para os EUA transitam por ali. Mas não é tudo. O Cartel de los Soles simplesmente não existe e o Tren de Aragua – outra das “organizações terroristas” nomeadas pela administração norte-americana – não tem qualquer relação com o poder bolivariano, antes pelo contrário. A estas conclusões chegaram as próprias agências de informações dos EUA, como revelou o Times em Fevereiro: os seus autores acabariam por ser demitidos.

A tese da “ditadura”, aceite com mais fervor pelos nossos média, é igualmente frágil. A grande evidência de “fraude eleitoral”, recorde-se, foi a apresentação pela oposição das supostas actas eleitorais roubadas das secções de voto. De resto, tratou-se de reeditar a “operação Guaidó” de alguns anos antes, somando-lhe o endeusamento de Maria Corina Machado, ocultando o seu passado golpista (esteve ligada à tentativa de golpe contra Chávez, em 2002), o envolvimento na imposição de um férreo bloqueio à Venezuela, as promessas de entregar aos EUA os recursos naturais do país e os apelos à intervenção militar externa.

Afinal, “soubemos” há dias pelo próprio Trump, tem tudo a ver com petróleo. Como era evidente.



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