Feios, porcos e maus
Deram justamente brado as declarações do ministro da Educação sobre residências universitárias. Para que não se diga que somos vítimas de desinformação, citemo-las directamente do que o Ministério publicou nas suas redes: «Aquilo que nós fazemos no Ensino Superior é não misturar. É pôr nas residências universitárias os estudantes dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos e, por isso (...) é que depois elas se degradam (...) e não são cuidadas (…). Porque quando nós metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar de um serviço público, nós sabemos que esse serviço público se deteriora. É assim nos hospitais, é assim nas escolas públicas (…). E é por isso (...) que nós vamos ter residências todas renovadas, mas que daqui a cinco anos se vão começar a degradar.»
Como quase toda a gente viu nestas declarações uma vergonhosa expressão de preconceito, elitismo e discriminação, o Ministério garantiu que o ministro ia à CNN explicar em directo. Pior a emenda do que o soneto, porque reafirmou tudo. Na verdade, não havia nada a desmentir, porque é exactamente isto que o Governo pensa: que aos pobres não vale a pena metê-los (usemos também este verbo, tão revelador) no Ensino Superior; que os serviços públicos são para pobres; que se os pobres os usam, escusam de ser cuidados; que os pobres não sabem protestar por melhores condições.
Logo, tirem-se os poucos pobres que conseguem chegar ao Ensino Superior das poucas residências que existem, para que se gerem oportunidades de negócio que os filhos dos um bocadinho menos pobres possam aproveitar, pagando preços um bocadinho abaixo do mercado, garantindo que o Estado continua alegremente a desinvestir na Educação e que o mercado continua alegremente a florescer. Não é descuido, nem problema de comunicação: é mesmo um plano. Que será alegremente derrotado pela luta dos estudantes e dos trabalhadores.




