Malabaristas
O primeiro-ministro, em vésperas da greve geral, perante aquilo que já se previa que esta viria a ser – uma grande greve geral – num acto de malabarismo e na tentativa de desmobilizar os trabalhadores de a fazer, anunciou urbi et orbe, que, caso o pacote laboral fosse aprovado, passaria a haver condições para ambiciosos objectivos nos aumentos salariais nos próximos anos. Até acenou com 1.600 euros para o salário mínimo nacional e 3.000 euros para o salário médio, acrescentado mais 100 euros a um e 500 euros a outro, relativamente ao que tinha dito no dia anterior.
Realizada a greve geral, e perante o fracasso da sua tentativa em demover os trabalhadores da luta, veio agora o Governo decidir que, a partir de Janeiro de 2026, o Salário Mínimo Nacional (SMN) aumentará 50 euros.
Ora, por este ritmo, tendo em conta que o SMN é hoje de 870 euros, a um aumento médio de 50 euros ao ano, lá para o ano de 2040 teríamos o SMN nacional nos 1600 euros. Mas, com o pacote laboral – tendo em conta o objectivo de contenção liberal que lhe é inerente – a perspectiva seria ainda pior.
Esforçou-se tanto o primeiro-ministro em desmobilizar os trabalhadores de fazer a greve geral, que nem se deu conta da contradição em que caía e que os trabalhadores logo perceberam: sendo o pacote laboral concebido para comprimir salários, como podia ser, ao mesmo tempo, mola propulsora de valorização salarial?
É que os trabalhadores, quando aderem a uma greve convocada pelo seu movimento sindical, fazem-no porque têm consciência da razão que lhes assiste e do quanto este instrumento de luta é decisivo na defesa dos seus direitos.
Por isso mesmo, ao darem a resposta que deram, aderindo massivamente à greve geral, os trabalhadores, entre tantas outras coisas, mostraram que «a banha da cobra» com que o primeiro-ministro os quis enganar não passou disso mesmo: da tentativa de lhes vender «gato por lebre», para os desmobilizar da luta. Para que aqueles que acumulam fortunas à custa da exploração de quem trabalha possam fazê-lo mais àvontade e mais profundamente. Até aos limites do insuportável.
«Muito se engana quem cuida», diz o povo e com razão. O que os trabalhadores mostraram é que não confiam em trampolineiros. Confiam na luta, na sua força e unidade, na sua organização. Confiam nas forças políticas que estão ao seu lado, como é inequivocamente, o caso do PCP.




