Um debate dentro da caixa

Vasco Cardoso

Catarina Martins e Jorge Pinto protagonizaram no domingo passado um dos últimos da longa maratona de debates que envolveram os candidatos a Presidente da República. No centro da troca de argumentos esteve a disputa para saber qual dos dois exibia maior convicção na defesa da União Europeia, ou do que ambos designam, por “projecto europeu”.

Convencidos de que a crítica à UE não dá votos, a estratégia adoptada por ambos passou por tomar como boa a política de confrontação, guerra e ataque aos direitos sociais que nas vésperas tinha sido confirmada na reunião do Conselho Europeu – que reúne os chefes de governo dos 27 – com a decisão de mobilizar mais 90 mil milhões de euros para, na prática, alimentar e prolongar a guerra na Ucrânia, juntando à destruição e morte de um conflito que se arrasta há anos, os impactos sociais do desvio de colossais recursos públicos para a indústria de armamento.

CM e JP repetiram os mesmos argumentos a que todos os dias assistimos nas infindáveis sessões de comentadores televisivos que nos explicam até à exaustão que, entre dois tiranos – Putin e Trump –, o caminho é o de armar a UE até aos dentes.

Não se pode dizer que exista surpresa nesta abordagem, mas não deixa de impressionar a proximidade com que estes putativos candidatos à esquerda assumem e reproduzem os mesmíssimos argumentos da direita e da extrema-direita, incluindo na exacerbação da ameaça externa para legitimar opções perigosas e antidemocráticas da UE, essas sim, uma efectiva ameaça aos direitos dos trabalhadores, aos serviços públicos e à paz. Impressiona também a ausência de qualquer abordagem sobre os interesses de classe em presença numa UE construída à medida dos interesses dos monopólios e das multinacionais. Uma UE que tem como receita os baixos salários, as privatizações, o ataque aos serviços públicos, a especulação imobiliária e financeira, a crescente concentração de riqueza nas mãos da grande burguesia e o poder absoluto das grandes potências – com intervenções como durante a troica, ameaças, sanções e fortíssimos condicionamentos - perante países mais pequenos e periféricos como Portugal.

É com vergonha alheia que se assiste a um debate entre dois candidatos a PR onde a defesa da soberania e independência nacionais não só estão ausentes, como são substituídos por uma infantil subserviência e submissão externas. Felizmente, temos a candidatura do António Filipe que não pede desculpa por defender o povo e a pátria.



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