Milagres

Gustavo Carneiro

Milagros integra a brigada médica cubana que presta serviço no Hospital Nacional “Mártir Brahim Saled”, no campo de refugiados de Rabuni, localizado na porção de deserto argelino onde se encontra estabelecida, no exílio, a República Árabe Sarauí Democrática. Responsável pelo serviço de Urgência, cumpre ali uma missão de três anos, juntamente com outros 17 compatriotas, profissionais de Saúde de várias especialidades (o mesmo fizeram, desde 1977, outros 500 clínicos cubanos, que trabalharam solidariamente nos campos de refugiados do Sara Ocidental).

Com os médicos internacionalistas – o “exército de batas brancas” de que falava Fidel – estão, todos os dias, profissionais de Saúde sarauís, grande parte deles formados em Cuba. Um dos responsáveis pelo Hospital Nacional, aliás, fez toda a formação escolar na ilha socialista, dos primeiros anos até à graduação em Medicina. Como ele, milhares de crianças e jovens sarauís, privados do seu país pela ocupação marroquina, encontraram em Cuba acolhimento e formação, que colocam depois ao serviço do seu povo. Hoje, graças a sarauís e a cubanos, como a alguns outros cooperantes internacionais com presença intermitente no território, não há epidemias nos campos de refugiados, a taxa de vacinação é elevadíssima, a saúde materna e infantil está generalizada e o número de partos em meio hospitalar aumentou consideravelmente.

A dimensão da façanha é proporcional às imensas carências existentes e às privações que inevitavelmente impõe a vida em campos de refugiados instalados numa das zonas mais inóspitas do planeta, onde as temperaturas chegam aos 55º: o hospital é pequeno e mal equipado; as ajudas cada vez mais escassas e os seus custos mais elevados; os profissionais e os medicamentos claramente insuficientes; a alimentação minuciosamente racionada e o modo de vida não é aquele a que os cubanos estão habituados (a efusiva alegria caribenha contrasta com a melancolia dos sarauís).

Apesar disso, é com um sorriso que a doutora Milagros explica como se consegue resultados tão positivos – com empenho, solidariedade e organização: a carência de médicos obriga a uma disponibilidade permanente; os casos mais complexos, a exigir cirurgias ou terapias, são encaminhados para a solidária Argélia; a existência de uma rede local de postos de saúde e hospitais secundários (um por cada acampamento, ou província), e a prestação de cuidados de Saúde ao domicílio ajudam a libertar pressão sobre o Hospital Nacional.

Milagros deve o seu nome ao facto de ter sobrevivido, tal como a sua mãe, a um parto particularmente difícil. Hoje, no Sara Ocidental, contribui para o autêntico milagre que é a resistência do povo sarauí, que há 50 anos se bate pelo seu direito à autodeterminação. «Fazemos o que podemos», diz a médica cubana. E é tanto.

 



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