Não há maior cego...

Manuel Gouveia

O Conselho de Finanças Públicas (CFP), em teoria, serve para «fiscalizar a sustentabilidade das finanças públicas em Portugal, garantindo a transparência e a credibilidade financeira do Estado». Mas, na prática – com a política de direita coloca-se sempre o problema da prática –, o CFP é só mais um instrumento das classes dominantes, que procura dar credibilidade e um ar de seriedade às opções dessas classes dominantes.

O último relatório sobre o Sector Empresarial do Estado (SEE) é prova disso mesmo. O relatório, de 69 páginas, recusa-se a fazer as contas ao resultado líquido apurado do conjunto das empresas do SEE. E a palavra é mesmo essa «recusa-se». É uma auto-limitação que se impõe por uma simples razão: o SEE em 2024 deu 489 milhões de euros de lucro. Graças a esta recusa – puramente ideológica –, o CFP consegue produzir o resultado desejado: o País foi bombardeado com notícias falsas como a que publicaram RTP, SIC e Observador: «Prejuízos das empresas do Estado agravaram-se para 1 312 milhões em 2024», que é soma, essa feita, dos resultados líquidos das empresas não financeiras. E como se pode provar que as notícias que inundaram o país são falsas? Partindo do mesmo relatório que as originou: É que o Relatório informa que as empresas do sector dos transportes e armazenagem do SEE tiveram um lucro de 205,1 milhões de euros, que as empresas dos outros sectores (excepto financeiras e Saúde) do SEE tiveram um lucro de 221,4 milhões de euros, e que as empresas financeiras do SEE tiveram um lucro de 1800,4 milhões de euros. Também informa que as empresas do SEE do Sector da Saúde (os hospitais e centros de saúde transferidos para o SEE pelo PS no quadro do processo de privatização em curso na Saúde) tiveram um prejuízo de 1738,1 milhões de euros (ou seja, foram subfinanciadas pelo OE).

Não parece difícil, certo? 205,1+221,4+1800,4-1738,1=488,8. Os dezassete anos de estudos para tirar um curso superior deveriam ser suficientes para se fazer esta conta. Mas diz o ditado que não há maior cego que o que não quer ver. E o CFP sabe que fazendo a conta não ajuda à propaganda das liberalizações e privatizações, que é a tarefa que verdadeiramente assume nos dias de hoje!



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