Boa gente

Jorge Cadima

São já mais de 80 os mortos em embarcações destruídas pelos EUA nas Caraíbas

Trump abriu nas Caraíbas uma nova frente de guerra, acusando o governo da Venezuela de estar envolvido em tráficos de drogas e o Presidente da Colômbia de ser um chefe do tráfico (New York Times, 28.10.25). O absurdo e a mentira vão para além das inexistentes ‘armas de destruição em massa’ inventadas para promover a invasão do Iraque (e a carreira de Durão Barroso). Ao mesmo tempo, Trump anuncia um «Perdão Pleno e Completo» (tweet de 28.11.25) ao ex-Presidente das Honduras, Juan Orlando Hernandez (JOH). Acontece que JOH foi julgado e condenado a 45 anos de prisão – por um tribunal norte-americano – por ajudar «à importação dumas quase inacreditáveis 400 toneladas de cocaína», correspondentes a «milhares de milhões de doses individuais enviadas para os Estados Unidos». Quem o afirmou foi o Ministério da Justiça dos EUA, dando nota da condenação e pena de JOH (www.justice.gov, comunicados de 8.3.24 e 26.6.24), acrescentando: «Enquanto Presidente das Honduras, [JOH] abusou do seu poder para apoiar uma das maiores e mais violentas conspirações de tráfico de droga no mundo».

O jornalista norte-americano Wyatt Reed escreve no conceituado portal The Grayzone que «enquanto Presidente das Honduras, e após o seu irmão Tony ser condenado a prisão perpétua por tráfico de cocaína, Hernandez iniciou contratos no valor de mais de meio milhão de dólares com uma empresa de lobbying [do Partido] Republicano, o BGR Group. Desde então, a BGR deu dezenas de milhares de dólares à campanha de Marco Rubio, o ex-Senador cubano-americano que é hoje Secretário de Estado [MNE] de Trump» (thegrayzone.com, 29.11.25). O cunhado de Rubio, Orlando Cicilia, «foi um prolífico traficante de cocaína» (miaminewtimes.com, 17.9.25), «preso e condenado, há quase 40 anos, por distribuir 15 milhões de dólares de cocaína, no âmbito duma grande rede operando no sul da Florida». Condenado a uma pena de 35 anos, não chegou a cumprir 12. Enquanto Senador estadual da Florida, Rubio recomendou o cunhado traficante a um gabinete oficial de licenciamento de obras (New York Times, 30.12.15).

Tudo ‘boa gente’, como se vê. Os cínicos dirão que, para o governo dos EUA, o verdadeiro problema é que os governos da Venezuela e da Colômbia não estejam envolvidos no tráfico.

O tweet em que Trump anuncia o perdão ao ex-Presidente traficante também foi uma ingerência nas eleições do passado domingo nas Honduras, apelando abertamente ao voto no candidato do partido do narcotraficante JOH e ameaçando retaliações económicas sobre as Honduras caso não vencesse. Já havia feito o mesmo na Argentina.

Entretanto, são já mais de 80 os mortos em embarcações destruídas pelas forças armadas dos EUA nas Caraíbas. O governo Trump reconheceu publicamente que «não conhece a identidade das vítimas dos seus ataques e que o Ministério da Guerra não tem as provas necessárias para levar a tribunal os sobreviventes dos ataques» (theintercept.com, 31.10.25). O que não obsta a que sejam assassinados...

A criminalidade e mentira espalham o caos, a agressão e a guerra. Os governos vassalos e a comunicação social lacaia mantêm-se discretamente silenciosos, assobiando para o lado. É a mesma impunidade de que gozam os crimes de Israel. Sempre subserviente, sempre pronta a lamber botas, a UE só se perturba quando os EUA ameaçam abandonar o pântano ucraniano. Pelas notícias que chegam, quem lá governa também é tudo ‘boa gente’.

 



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