O caniche
Esta crónica é sobre o Chega, mas não sobre o que habitualmente se diz e escreve na generalidade dos jornais, televisões e rádios sobre o Chega. Não vai atrás de tiradas fascistóides, cartazes ofensivos ou tik-toks racistas, por mais graves que sejam – e são! Não debate o relevante mas complexo conceito de “populismo” nem dá para o peditório da alegada “coragem” em dizer “as verdades”. E não versa sobre o “discurso disruptivo”, a forma “directa” de fazer política ou o “carisma do líder”, temas de inegável interesse e sem dúvida a merecer aprofundamento – porém, não aqui nem agora.
O propósito destas linhas é bem mais modesto, mas nem por isso assume menor relevância (é essa, pelo menos, a convicção de quem as escreve): ajudar a demonstrar, partindo de posições próprias, a quem serve o Chega. Para lá de toda a gritaria e das encenações.
Ainda em Setembro, antes da entrega da proposta do Orçamento do Estado, o Governo negociou com o Chega um conjunto de matérias fiscais. A 19 desse mês, noticiava o ECO: «A proposta de descida de IRC do Governo para 19% em 2026, 18% para 2027 e 17% para 2028 foi aprovada esta sexta-feira, na generalidade, com a ajuda do Chega, depois de o Governo ter aberto a porta a uma redução da derrama estadual, como defende o partido de André Ventura.»
Em causa com esta descida do IRC está a entrega de 2 mil milhões de euros anuais aos grandes grupos económicos, acentuando a injustiça fiscal e privando o Estado de importantes recursos. Por mais que se insista – a começar pelos média – em trazer para o debate “a economia” e as “pequenas e médias empresas”, a verdade é que grande parte das empresas portuguesas (precisamente as de menor dimensão) não chega sequer a pagar este imposto, pois não tem rendimentos para o fazer. Mais revelador ainda é o caso da derrama estadual, cobrada a partir de lucros superiores a um milhão e meio de euros (a taxa máxima, essa, abrange os que se situam acima dos 35 milhões). De um universo de cerca de um milhão de empresas, só 3600 pagam derrama e apenas 74 delas são responsáveis por 60% do total do valor cobrado – as maiores das maiores, evidentemente, que serão as grandes beneficiadas pela medida, caso avance.
Também não será por acaso ter sido o Chega o parceiro “escolhido” pelo Governo (ou por quem manda em ambos, para o caso tanto faz) para alterar para pior a legislação laboral. Agora não grita, limita-se a pedir “cedências” enquanto reafirma a disponibilidade para aprovar o pacote laboral. Sempre pronto para “partir a louça toda”, Ventura diz que o país «não precisa de greves, mas de trabalho», o mesmo que repetem os patrões a quem serve.
Tão “corajoso” contra os mais desfavorecidos, não passa do caniche dos poderosos. Senta! Rebola! Lindo menino...




