Trabalho e luta
Ainda só se indiciava como provável uma resposta dos trabalhadores à declaração de guerra aos seus direitos e condições de vida vertida no pacote laboral e já se ligavam os motores para pôr em marcha o conjunto de distorções e falsidades para a desvalorizar, denegrir ou anatemizar. Nada que cause surpresa maior. Há quem, face ao silabar das palavras trabalho e luta, mais que as palavras, sobretudo os conceitos e a materialidade que as acompanha, faz soar a rebate tudo o que são forças do capital e instrumentos ao seu serviço.
Trabalho pelo que envolve de expressão de relação social do que dele resulta da relação e processo com natureza e meio e o poder de os transformar e não como mera fonte de mais-valia o único ângulo pelo qual o capital que a apropria o observa. E, em particular, a luta, esse processo e força material com o que comporta de disputa entre contrários, capaz de intervir, enfrentar e determinar o desenlace desse contraditório que separa capital e trabalho.
É ver por aí accionados os argumentos que pretendem naturalizar este atentado a direitos, feito a partir não do que o pacote laboral representa de retrocesso, mas, sim, de tacticistas formas de o concretizar. Daí que se sucedam os apelos a retomas de uma “concertação social” que, se preenchida, tornaria admissível esta peça da engrenagem de exploração; a aceitação, como boa, deste projecto de facilitação de trabalho não pago para engordar a parcela dos lucros desde que resultasse de uma “negociação geral”; os apelos a “bom senso” no Parlamento ou a patética redução do que está por diante a assomos de injustificada “crispação” – tudo para que, no rescaldo, o essencial deste ambicionado atentado aporte em segurança no cais do grande capital.
Por detrás das adjectivações do costume sobre alegadas instrumentalizações e agendas partidárias ou doutas explanações sobre modernidade laboral, o que está é essa agenda de acumulação de lucros sem fim para uma minoria, mediada pela concreta relação alcançada entre capital-trabalho. Registe-se no contorcionismo de vários candidatos sobre a matéria, a clareza de António Filipe quanto ao uso que faria da plenitude dos poderes constitucionais para defender quem trabalha.




