Nova Iorque – simbolismo e realidade

Ângelo Alves

Nos EUA, um em cada oito cidadãos passa fome

O mundo está a ser percorrido por profundas alterações. Ao aprofundamento da crise estrutural do capitalismo associa-se uma rearrumação de forças à escala mundial onde é notório o declínio relativo das grandes potências imperialistas mundiais, desde logo dos EUA. Tal tendência expressa-se nas relações económicas, comerciais, geo-estratégicas, político-diplomáticas e militares entre nações ou blocos de nações. Nesse turbulento e complexo xadrez é por demais evidente que alguns dos instrumentos e mecanismos que permitem às potências imperialistas assegurar o seu domínio mundial, designadamente no plano económico, cientifico e comercial, estão no mínimo postos em causa. A realidade material económica e das relações comerciais e políticas entre Estados tende a alterar-se ainda mais e terá cada vez mais consequências na situação interna dos Estados, assim como o tem e terá a aposta das classes dominantes no militarismo, na guerra e no aumento da exploração, articulados com a aposta no fascismo, meios com que o poder imperialista tenta contrariar o sentido das alterações em curso nas relações internacionais. A resultante deste processo muito turbulento vai depender de vários factores que não temos espaço para desenvolver nestas linhas. Mas há algo que importa sublinhar: a evolução social e económica em cada país, a luta dos trabalhadores e a correlação de forças entre capital e trabalho que daí resultar, desde logo nos centros do poder imperialista, vai ser determinante.

E é aqui que cabe uma breve nota sobre a situação nos EUA, onde a situação económica e social é verdadeiramente explosiva. As brutais desigualdades sociais atingiram este ano níveis históricos. No País onde 10% da população controla 71,2% da riqueza, e onde os milionários aumentaram em 700 mil milhões de Dólares a sua riqueza neste ano, 40% da população (dos quais metade são crianças) é considerada pobre ou com “renda baixa”, 42 milhões de pessoas são obrigadas a recorrer ao programa “vale-alimentação” (que foi suspenso durante o Shutdown), 1 em cada 8 cidadãos passa fome, os custos com saúde e habitação dispararam e os sem-abrigo são no mínimo 800 mil. A forte inflação e o aumento do desemprego completam um verdadeiro cenário de declínio e crescentes contradições internas na maior potência imperialista mundial.

É neste contexto que a recente eleição do mayor de Nova Iorque suscita interesse. Não porque Zohran Mamdani seja um comunista ou um socialista que ponha em causa o sistema político dominante nos EUA (é, aliás, membro do Partido Democrata), mas sim porque a sua opção de centrar a campanha em ideias como o congelamento de rendas durante quatro anos nas habitações com renda já controlada, uma rede de supermercados com preços controlados dos alimentos, transportes públicos gratuitos e creches gratuitas é inseparável das contradições e problemas estruturais daquela sociedade. Ter ganho as eleições com estas propostas na cidade da Wall Street tem um inegável simbolismo. O futuro dirá se esse simbolismo e a esperança de muitos se transforma em acção e transformação real, ou se pelo contrário estamos perante uma válvula de escape de um modelo económico, social e político em visível declínio. As mais recentes notícias sobre compromissos que já está a assumir com o tradicional establishment do Partido Democrata e com poderosos representantes do sector imobiliário aconselha-nos à prudência nas esperanças e absolutizações que por aí andam e sobretudo quanto à forma como a situação política vai evoluir naquele país.



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