Chega de mentiras

Margarida Botelho

«André Ventura, não reescreva a história!», interrompe Júlia Pinheiro, depois do presidente do Chega ter repetido no seu programa os disparates do costume sobre comunistas assassinos de bebés. Ventura responde o que também é costume: está a ser dita «pela primeira vez a verdade na televisão» ou «em televisão não estão habituados a ouvir isto» – o que não deixa de ter graça vindo do líder partidário que sucessivamente bate recordes de mais horas de televisão e entrevistas “exclusivas”. E em que, diga-se, repete sucessivamente as mesmas frases.

O facto de Ventura difundir as mentiras do regime fascista não é novidade. É assim quando branqueia o fascismo, comparando-o com a Primeira República (uma «bandalheira» cheia de «socialistas», diz ele), que construiu «escolas primárias e hospitais», onde havia «ordem». É assim quando associa ao 25 de Abril uns supostos «50 anos de corrupção». É assim quando recorre ao anticomunismo mais grosseiro, à difamação e à calúnia.

O que espanta não é propriamente o que diz. O que espanta é que ainda haja quem se surpreenda com Ventura, que há anos faz da mentira o centro da sua intervenção, numa espiral de degradação. Espanta é que Júlia Pinheiro seja caso raro a expressar indignação face às barbaridades ditas. A regra é convidar o homem pela enésima vez para insultar quem o entrevista e o canal que lhe dá palco, sem reacção nem contraditório, para repetir o mesmo dali a meia dúzia de dias.

No XXII Congresso, o PCP alertou para o «recrudescimento de concepções retrógradas e reaccionárias, com a promoção de forças de extrema-direita e a difusão do anticomunismo, em que o branqueamento do fascismo e a reescrita da revolução de Abril são elementos estruturantes». São tendências que correspondem à elevação do confronto do grande capital com o regime democrático. E é neste quadro que têm de ser lidas, e combatidas, as mentiras de Ventura.



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