Vir à luta

Filipe Diniz

A capa do jornal Sempre Fixe de 4 de Maio de 1974 era um dos magníficos e sempre certeiros cartoons de João Abel Manta. Tratava dos vira-casacas: o alfaiate com uma parede pejada de casacas penduradas chutava um cliente: «Não me chateie, já disse que só posso virar a casaca lá para Setembro.»

O movimento assim caricaturado tem muito mais significado do que o de meros comportamentos individuais. Reflecte o trajecto de certos estratos da sociedade, traduzido em «hesitações, contradições, desorientação, súbitas viragens à direita e à esquerda, manifestações de impaciência e desespero» (A. Cunhal, “Radicalismo...”).

E o oportunismo sempre foi endémico em alguns estratos da sociedade portuguesa. Há quem ache que a conjuntura é tudo. Quem só consiga estar alinhado pelo que julga a mó de cima e amanhã logo se vê. Se se fosse pela caricatura de João Abel Manta, já não teria lado da casaca para virar.

É nessa base que alguns inventaram um truque. Chama-se “moderação”. Serve para tudo, até para dar lustro a coisas nada moderadas (o exemplo clássico é o título de um jornal britânico sobre o 11 de Março de 1975: «Os moderados bombardeiam Lisboa.» Estão a falar do “moderado” Spínola). Serve, entre outras coisas, para várias casacas em simultâneo, como agora parece ser a linha em certas candidaturas presidenciais. É o inverso da coragem.

Os tempos que correm são bem difíceis para a grande maioria dos portugueses. Exigem escolha decidida. Exigem dar a cara. E a enorme marcha dos trabalhadores convocada pela CGTP-IN no sábado passado é não só um inesquecível exemplo disso mesmo. É também um generoso e muito alargado convite aos hesitantes.

É que, por maiores que sejam as dificuldades e os obstáculos, o futuro pertence aos trabalhadores e ao povo. E quando, como sucedeu no sábado, os vemos em massa, em movimento e em sólida unidade de combate, estarão um pouco mais próximos de passar à mó de cima.



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