A inspiração
Passam 20 anos sobre a realização da histórica IV Cimeira das Américas, na localidade argentina de Mar del Plata: foi aí que, em Novembro de 2005, se enterrou definitivamente (?) o Acordo de Livre Comércio das Américas, ALCA, ambicioso projecto norte-americano de recolonização do subcontinente latino-americano, com o qual o imperialismo procurava consagrar –aprofundar talvez seja mais indicado – a velhíssima Doutrina Monroe: “a América [Central e do Sul] para os americanos [do Norte]”.
Delineado ainda no tempo da administração de George Bush pai, no início da década de 90 do século XX (que marcou a arrogante afirmação da “nova ordem” unipolarnorte-americana), o “Acordo” deveria ser ali consumado pelo herdeiro, George W. Bush, que tinha do seu lado os subservientes chefes de Estado do México, Panamá e Trindade e Tobago. Mas a história seguiria outro rumo – ou não fosse ela a da luta de classes.
Hugo Chávez, da Venezuela, Lula da Silva, do Brasil, e Néstor Kirchner, da Argentina, opunham-se ao projecto e foram, na reunião oficial, a voz da multidão que, vinda de todos os recantos da vasta região, dava corpo ali mesmo em Mar del Plata à imensa Cimeira dos Povos, que disse Não! à submissão e à dependência e derrotou o “Acordo” que pouco antes parecia imparável. Ali estiveram muitos dos que passaram os anos anteriores a combater as privatizações, os despedimentos, a pilhagem de recursos e a bater-se pelo direito a produzir: sindicalistas, camponeses, indígenas, estudantes, activistas dos mais variados movimentos sociais – e, com eles, na localidade costeira argentina, os cantautores Silvio Rodríguez, Daniel Viglietti e Vicente Feliú,o sindicalista e futuro presidente da Bolívia Evo Morales, a “Mãe da Praça de Maio” Hebe de Bonafini, a estrela mundial de futebol Diego Maradona…
Ausente da cimeira, por ter sido excluída da desacreditada Organização dos Estados Americanos e do próprio âmbito do “acordo de livre comércio”, Cuba era saudada nas ruas em cartazes, discursos e bandeiras. Os manifestantes, representando os povos latino-americanos e caribenhos, não esqueciam os alertas do Comandante Fidel Castro, que desde a primeira hora vira o projecto norte-americano como aquilo que ele era: um «instrumento de anexação», um «novo colonialismo» que procurava impor uma relação assimétrica capaz de perpetuar o domínio económico e político dos EUA e pôr fim a qualquer veleidade de autonomia regional.
Há duas décadas, a unidade e a combatividade dos povos da América Latina e das Caraíbas derrotaram as pretensões hegemónicas da maior potência económica e militar do planeta, e dos seus monopólios, e apontaram caminhos de cooperação soberana. Uma inspiração quando sobre a martirizada região pairam novas e tão graves ameaças.




