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Gustavo Carneiro

José Luís Carneiro anunciou há dias, sem surpresa, que o PS se irá abster na votação na generalidade do Orçamento do Estado para 2026, muito embora o considere «vazio de ambição e de conteúdo». E disse mais: caso a proposta não seja «desvirtuada» na especialidade – então, mas não era “vazia” e “sem estratégia”? –, esse será também o sentido de voto final. Assim, dizemos nós, se assegura a aprovação do documento e liberta uma vez mais o Chega do “incómodo” de ter de assumir a concordância com o essencial das propostas nele contidas e, também, de partilhar as responsabilidades pelas suas consequências.

E para que ninguém pense que o PS converge com o Governo PSD-CDS em opções políticas fundamentais, José Luís Carneiro esclarece: trata-se de uma «abstenção exigente». A ideia, revelou, é não dar ao Governo qualquer desculpa para «esconder a sua incompetência na execução das políticas públicas e no incumprimento das promessas que fez». Ou seja, estamos perante uma espécie de armadilha em que o povo e o País são o isco…

É precisamente esta “oposição responsável” do PS que o levou a deixar passar todos os orçamentos da Câmara Municipal de Lisboa apresentados por aquele que diz ser o “pior presidente” da história do município. Para a sua estrutura local, esta viabilização não significava «concordância» ou «apoio» às opções da maioria PSD-CDS, mas um «compromisso com a estabilidade da cidade» – essa mesma estabilidade que agravou a expulsão de milhares de pessoas da capital (iniciada, aliás, pelo PS), enquanto a transformava num imenso parque de diversões. E, acrescentou, o facto dessa viabilização não ter sido acompanhada de condições não significa que o PS não tenha sido «exigente, atento e vigilante». Viu-se…

Este PS, com quem alguns exigiram que a CDU se coligasse em Lisboa, em nome da “unidade da esquerda”, é o mesmo que em Loures recandidatou Ricardo Leão à presidência da Câmara Municipal – e eleitoralmente saiu-se bem. A questão é que o autarca ficou conhecido pela desumanidade com que trata os mais pobres, sejam moradores de bairros degradados, ameaçados de despejo «sem piedade», sejam crianças que, se pudesse, privaria de refeições escolares caso os pais não as pagassem. E não é diferente do que, em Santiago do Cacém, se escondeu atrás de um movimento dito “independente”, juntamente com PSD, CDS, IL e interesses ligados ao turismo – tudo gente muito “à esquerda”, está visto – para retirar a maioria à CDU, o que acabou por conseguir por escassa margem.

Por mais que haja quem tenha dificuldade em assumi-lo, a verdade é que não há atalhos: para combater a direita, seja ela qual for (e é o conteúdo, e não a forma, que mais importa), é preciso coragem, clareza e iniciativa. E unidade, claro, mas em torno de projectos alternativos e não de slogans vazios.

 



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