O que os mói…

Ângelo Alves

Passada mais de uma semana das eleições autárquicas, os comentadores encartados da ideologia dominante ainda debitam pseudo-análises sobre os resultados eleitorais. Depois de uma indisfarçável surpresa no dia das eleições relativamente ao resultado da CDU (que por mais que o tentem esconder não foi o resultado que desejavam comentar), os dias seguintes foram de reorganização de tropas, retomando-se então de forma “organizada” o estafado discurso do declínio irreversível do PCP. Por seu lado, o Comité Central do PCP, reconhecendo que o resultado era em geral negativo, sublinhou o conjunto de elementos de resistência e até de avanços que os resultados continham.

É esta a questão de fundo que nos leva a escrever estas linhas. É que o resultado da CDU, obtido em condições profundamente adversas e num quadro de uma brutal ofensiva social, política e ideológica de natureza reaccionária, contém de facto elementos de resistência e acumulação de forças que, no actual quadro, são de uma enorme importância para os trabalhadores e para o povo, que estão sujeitos a grandes ameaças aos seus direitos, aos seus rendimentos, à sua vida, dignidade e liberdades, mesmo que não o tenham percebido ainda em toda a sua extensão.

Não faltam exemplos, mas há um que vale a pena referir pela sua gravidade e simbolismo. Passadas poucas horas das eleições, na manhã de segunda-feira, dia 13, cerca de 240 trabalhadores da Teleperformance foram convocados para visualizar uma mensagem em teleconferência. Num vídeo, o CEO da empresa comunicou-lhes que estavam a ser despedidos naquele momento, que seriam convocados para reuniões individuais nos próximos três dias para operacionalizar a decisão e que a partir do momento em que viam aquele vídeo deixariam de ter acesso ao sistema da empresa. «É uma resposta necessária à realidade objectiva que enfrentamos», rematou o CEO.

De um momento para o outro, sem qualquer aviso prévio, 240 pessoas viram as suas vidas viradas do avesso. Assim… por vídeo. É por estes trabalhadores, para os servir e para com eles resistir e lutar, que cá andamos. E é isso que mói os que gostavam que não tivéssemos resistido. Mas resistimos, e cá estamos, com força e projecto, prontos para a luta que continua!

 



Mais artigos de: Opinião

Erradicar a política da pobreza

Um Governo que promove a redução dos salários, a desregulação dos horários de trabalho e a precariedade laboral não reduz a pobreza, multiplica-a. Um Governo que nega direitos sociais, degrada o funcionamento dos serviços públicos e limita o seu alcance, privatizando-os ou condicionando...

Solidariedade europeia

A maior economia da UE está em acelerada desindustrialização. Os números oficiais da produção industrial alemã registam em Agosto uma quebra de 3,9% face ao mesmo mês do ano passado. (destatis.de, 8.10.25). A ThyssenKrupp anunciou o despedimento de 11 mil trabalhadores, 40% da sua força de trabalho, até ao final da...

Unidades

José Luís Carneiro anunciou há dias, sem surpresa, que o PS se irá abster na votação na generalidade do Orçamento do Estado para 2026, muito embora o considere «vazio de ambição e de conteúdo». E disse mais: caso a proposta não seja «desvirtuada» na especialidade – então, mas não era “vazia” e “sem estratégia”? –, esse...

Assunto encerrado

Fernando Alexandre, o magarefe de turno ao serviço do capital na destruição da escola pública, empenhado que está no velhíssimo projecto de pôr os estudantes e as suas famílias a pagar totalmente a educação (agora nos mais elevados níveis, mas a abrir o caminho para o estender aos outros níveis da escolaridade), veio...

Expressa cegueira

Daniel Oliveira (DO) voltou. Seja para mostrar serviço, seja por compulsão ideológica. O anticomunismo cega-o. Centrado na leitura do resultado das eleições autárquicas procura fazer o que os resultados não fizeram, ou seja reduzir a pó, como ambicionaria, o PCP. O que o texto no Expresso revela para lá catilinária...