Solidariedade europeia

Jorge Cadima

Para a guerra e o banqueiro, há sempre dinheiro

A maior economia da UE está em acelerada desindustrialização. Os números oficiais da produção industrial alemã registam em Agosto uma quebra de 3,9% face ao mesmo mês do ano passado. (destatis.de, 8.10.25). A ThyssenKrupp anunciou o despedimento de 11 mil trabalhadores, 40% da sua força de trabalho, até ao final da década (cnn.com, 25.11.24). A Volkswagen vai despedir 7500 até 2029 (cnn.com, 18.3.25). São só dois exemplos.

As notícias chegam desenquadradas. Como causas da desindustrialização aparecem, escondidas e crípticas, referências aos custos da energia na Alemanha. Raras vezes é dito que esses custos são resultado directo das políticas de guerra imperialistas. A começar pelo maior acto de terrorismo económico na história da UE: a destruição em 2022 dos gasodutos NordStream. Enquanto a UE instiga a histeria contra a Rússia (vendo drones debaixo da cama), foram os seus “aliados” os responsáveis por esta sabotagem à bomba. Encomendado e parcialmente pago pela Alemanha, o NordStream 2 garantia à indústria alemã energia barata, segura e amiga do ambiente. Era a solução lógica, que seguia “as regras do mercado”. Mas os EUA sempre se opuseram à independência energética alemã. Os gasodutos NordStream (1 e 2) foram alvo de sanções antes de serem destruídos à bomba. O actual MNE polaco Sikorski (homem de mão de Washington) saudou o acto terrorista de 2022 com um tweet dizendo: «Obrigado, EUA». Agora foi a vez do PM polaco Tusk (homem de mão de Bruxelas) dizer: «O problema da Europa […] não é que o NordStream 2 tenha sido mandado pelos ares, é que tenha sido construído» (RT, 7.10.25). Problema que, pelos vistos, fica bem resolvido à bomba. A “solidariedade europeia” entrou na fase terrorista. Além do mais, foi uma solução “amiga do ambiente”. Um estudo do Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) publicado na revista científica Nature (n. 637) diz que a sabotagem libertou para o Mar Báltico e a atmosfera mais de 485 000 toneladas de gás metano, «a maior libertação provocada pelo homem de gás metano, um gás de efeito de estufa», tendo «contribuído para o aquecimento global tanto quanto 8 milhões de carros conduzidos durante um ano» (unep.org, 15.1.25). E viva a “transição verde”.

Às bombas juntam-se as sanções, destinadas a destruir a economia russa, mas que estão a destruir as economias da UE. Esta semana a UE proibiu a importação de gás russo, que ainda «representa 12% das importações de gás». Para o fazer teve de «conceber as propostas de forma a serem aprovadas apesar da oposição da Hungria e Eslováquia» (france24.com, 20.10.25), maneira retorcida de dizer que foi violada a necessária regra da unanimidade. Há que estrangular os recalcitrantes. A “solidariedade europeia” é autofágica. Quem esqueceu a troika?

O PM alemão Merz diz que «o actual Estado social já não pode ser financiado com o que produzimos na economia» (dw.com, 23.8.25). Mas dias depois o seu Ministro das Finanças viajou até Kiev para anunciar que o governo alemão «vai dar à Ucrânia 9 mil milhões de euros por ano, durante os próximos anos» (interfax.com, 26.8.25). E Berlim decidiu encomendar mais 15 aviões de guerra F-35 aos EUA (a juntar aos 35 já comprados), num valor de 2,5 mil milhões de euros (dw.com, 20.10.25). A ser pago com dívida. Para a guerra e o banqueiro, há sempre dinheiro. E quando os povos não tiverem pão, que comam Inteligência Artificial.

 



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