Contrónimos
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, discursou na 80.ª Assembleia Geral das Nações Unidas para uma sala cheia de cadeiras vazias. No que a imprensa corporativa classificou de “momento histórico”, a generalidade das delegações presentes na sede da ONU deixou Netanyahu a falar sozinho e isso, naturalmente, foi notícia em todo o mundo. A desfeita terá magoado o ego do senhor da guerra, mas não consta que tenha beliscado sequer os propósitos anunciados na mensagem que levou a Nova Iorque.
Também não consta que os media, tão atentos a percalços de escadas rolantes e telepontos, tenham ousado questionar a comparência de Netanyahu na Assembleia, como se uma amnésia colectiva tivesse feito esquecer que o Tribunal Penal Internacional emitiu em Novembro último um mandado de prisão contra ele por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, e que a própria ONU já concluiu que o governo israelita que Netanyahu encabeça está a cometer um genocídio em Gaza.
Na verdade, não é de estranhar. Sem subestimar as boas intenções, que existem, é preciso dizer que a 80.ª Assembleia Geral foi palco de uma refinada coreografia de contrónimos, palavra inexistente nos dicionários de português, que em tradução livre do inglês equivale a antagónimos, ou seja em que há antagonismo, ou por outras palavras, que significa uma coisa e o seu contrário.
O reconhecimento do Estado da Palestina, reivindicação antiga e legítima dos palestinianos, sendo uma derrota diplomática de Israel, é simultaneamente uma falsa bandeira que visa apagar o passado, negar o genocídio, branquear o presente e liquidar qualquer possibilidade de futuro.
De Paris a Bruxelas, de Madrid a Londres, de Istambul a Otava, o Estado da Palestina de que se fala e está a ser desenhado à revelia dos palestinianos não tem fronteiras, não tem soberania, não tem direito à defesa, não tem continuidade territorial, não tem direito a acolher a sua diáspora, não tem cultura, não tem terra, não tem liberdade de movimentos, não tem liberdade de escolha. As potências que perante a torrente de sangue derramado já não conseguem conter a contestação interna dos seus cidadãos em defesa dos palestinianos, usam a poderosa arma da propaganda para tentar impor a ‘solução’ colonial que Israel propaga a ferro e fogo. Tentam reescrever a história, omitindo os colonatos ilegais, o muro do apartheid, os postos de controlo, amalgamando sob o rótulo de ‘terrorista’ os palestinianos que reivindicam soberania sobre a Palestina histórica, conforme a Resolução 3236 da ONU, aprovada em 22 de Novembro de 1974, onde se reafirma o direito inalienável do povo palestiniano à autodeterminação, à soberania nacional e ao retorno às suas casas e propriedades, confirmado de resto pelo TIP como uma obrigação erga omnes (para todos). Julgam poder assim apagar o passado. Deviam ler William Faulkner: “O passado nunca morre, nem sequer é passado. Na verdade, ainda está tudo a acontecer”.




