Silopor ou Silotagus

Manuel Gouveia

A Silopor é uma empresa pública estratégica para o País. Pelos seus silos portuários se processam muitas das importações do ramo alimentar de que o País depende (por exemplo, mais de 50% das importações de cereais). No início deste século a UE decretou a liberalização dos mercados do comércio de cereais e ordenou que a actividade da Silopor fosse concessionada a privados.

O governo de então (PS/Guterres) obedeceu e colocou a empresa em dissolução e liquidação. Em 2007, os Silos de Leixões (que também pertenciam à Silopor) foram oferecidos ao Grupo Champalimaud (era governo o PS/Sócrates). O concurso de Lisboa arrastou-se e, em 2015, quando outro governo do PS (António Costa) tentou concretizar a privatização, que chegou a ser colocada na proposta de OE para 2016, não teve as condições políticas para tal.

A Silopor foi assim literalmente gerida durante 23 anos por uma Comissão de Liquidação. E apesar disso executou sempre a sua Missão Estratégica. E ainda deu lucro – 39 milhões nos últimos 12 anos, em que foi sempre lucrativa.

O novo Governo, desta vez um do PSD/CDS, mudou-lhe o nome, para Silotagus, e decidiu privatizá-la seguindo (e as palavras são de um secretário de Estado) «o modelo da ANA» (uma PPP em que os contratos de concessão com o privado são assinados antes da privatização, para fugir ao escrutínio prévio). Um modelo que foi formalmente criticado pelo Tribunal de Contas, por dar azo a todo o tipo de corrupções e por não salvaguardar o interesse público.

Mas nada nestes processos tem como objectivo salvaguardar o interesse público. É o interesse privado o motor de tudo: o lucro de uns e as recompensas de outros por se colocarem ao serviço dos primeiros.



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