Este Governo não age sozinho

Vasco Cardoso

Estamos a poucos dias da entrega da proposta do Orçamento do Estado para 2026. Para que essa proposta seja aprovada, para além dos votos favoráveis de PSD e CDS na Assembleia da República, o Governo precisará do apoio do Chega ou do PS, ou dos dois em simultâneo. Sem o apoio de pelo menos de um destes partidos, a proposta de OE 2026 não será aprovada.

Este mesmo raciocínio é válido para a maioria das decisões que estão em curso. Seja a descida do IRC para os grupos económicos, sejam as alterações às leis laborais, seja a privatização da TAP, só para citar alguns exemplos.

No entanto, quer o Chega, quer o PS não se cansam de reivindicar para si o estatuto de “oposição”. O Chega diz que é agora o “maior partido da oposição”. Uma “oposição” que assenta na demagogia e na mentira sistemática, e na indecorosa promoção mediática que recebe, para disfarçar a convergência com o que de mais negativo este Governo se propõe fazer. Já o PS reivindica para si o estatuto de “oposição responsável”, que é uma forma de dizer que não confrontará em nenhum momento a política de favorecimento dos grupos económicos e de submissão às imposições da UE e do imperialismo. Temos ainda a IL, cujas posições estão no fundamental alinhadas com o rumo do Governo (e as opções do Chega), mas cujos votos não são neste momento determinantes.

A situação actual é esta: temos um Governo PSD/CDS que governa ora com o apoio do Chega (e IL) ora com o apoio do PS. Quando o Chega apoia as propostas do Governo, o PS diz que é oposição; já quando é o PS a apoiar as propostas do Governo, é o Chega que se “liberta” para poder chamar nomes ao Governo que antes apoiou. Uma verdadeira orquestra, onde cada um toca o seu instrumento e cuja música faz as delícias do grande capital.

É claro que nada disto está livre de contradições e choques que, tal como noutros momentos, se podem vir a agudizar, sobretudo se aprofundados pela capacidade de resistência e luta dos trabalhadores e do povo, perante uma política que visa o agravamento da exploração e das injustiças. Mas a denúncia de que este Governo não age sozinho e que conta com o apoio do Chega e IL, mas também do PS em matérias centrais, é fundamental, não apenas para desmascarar estes protagonistas, mas para construir a alternativa.



Mais artigos de: Opinião

A Real Fábrica da Exploração

Em 1741, D. João V quis comer gelados. Sem electricidade nem neve, a solução foi mandar construir a Real Fábrica do Gelo na serra de Montejunto. Tecnologicamente avançada, a fábrica consistia num complexo de túneis e poços para congelar água. Quando isso acontecia, era necessário retirar o gelo...

Palestina. Que reconhecimento?

Portugal reconheceu o Estado da Palestina. Tal facto é uma vitória da heróica resistência e luta do povo palestiniano, do forte movimento de solidariedade com a Palestina e também do PCP, que nunca se cansa de lutar em Portugal pelos direitos daquele povo. Mas dito isto é importante aclarar várias questões sobre o que de...

Contrónimos

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, discursou na 80.ª Assembleia Geral das Nações Unidas para uma sala cheia de cadeiras vazias. No que a imprensa corporativa classificou de “momento histórico”, a generalidade das delegações presentes na sede da ONU deixou Netanyahu a falar sozinho e isso, naturalmente,...

O jornalismo em Portugal

A propósito do Dia Mundial do Jornalismo, que algumas organizações celebraram no domingo passado, embora a “comunidade” jornalística mundial assinale, em 3 de Maio, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, proclamado pela UNESCO em 1993, a coordenadora do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências...

Silopor ou Silotagus

A Silopor é uma empresa pública estratégica para o País. Pelos seus silos portuários se processam muitas das importações do ramo alimentar de que o País depende (por exemplo, mais de 50% das importações de cereais). No início deste século a UE decretou a liberalização dos mercados do comércio de cereais e ordenou que a...