Assalto ao comboio no Reino Unido
O processo de liberalização dos comboios na União Europeia teve o seu início fora dela: no Reino Unido. Reinava uma Tatcher de má memória, e a privatização dos comboios do Reino Unido separou a infra-estrutura da operação, privatizou ambas e pulverizou a ferrovia por quase uma centena de diferentes concessões a empresas privadas.
A primeira grande machadada foi dada nas condições de trabalho e nas remunerações dos ferroviários. Despedimentos em massa, transferência para prestadores de serviços, precarização, pulverização, desorganização, tudo a par de leis severas contra a luta e intervenção sindical, permitiram liberalizar e privatizar.
Foi o desastre completo. Não apenas para os ferroviários – o aumento da sua exploração e precariedade era o grande objectivo da «reforma», não seria isso que a iria colocar em causa. Mas o desastre foi quase generalizado: os utentes viram o serviço degradar-se na qualidade e fiabilidade, ao mesmo tempo que os preços disparavam; surgiram graves problemas de segurança e graves acidentes ferroviários; e o Estado viu multiplicado por 10 as despesas que tinha com o sistema, com o custo anual dos apoios públicos a ultrapassar os 10 mil milhões de euros em 2019.
Na sequência de uma série de acidentes de enorme gravidade, com dezenas de mortos, em 2002, o governo foi forçado a renacionalizar a gestora da infra-estrutura e a injectar capital para ultrapassar o desastre gerado pela privatização. Em 2021, Gales renacionalizou a maior parte da sua operação. Em 2022 seria a Escócia a fazê-lo. E neste momento é o governo inglês que avança para a renacionalização da operação.
A privatização dos comboios ingleses criou muitos ricos, mas deixou um rasto de destruição, morte, precariedade, dívidas e encargos públicos, que se tornaram insuportáveis para a própria classe dominante, que por um lado sofria a pressão crescente dos utentes e das lutas ferroviárias, e por outro precisa que uma infra-estrutura estratégica funcione e não coloque em causa o lucro e rentabilidade que pretende retirar do resto da economia. E teve de recuar.