Questão de escolha

Anabela Fino

Ave Caesar, morituri te salutant (Ave César, os que vão morrer saúdam-te) é a conhecida expressão latina citada em “A vida dos doze Césares” (De vita Caesarum), do autor romano Suetónio, que terá sido usada pelos presos forçados a lutar até à morte durante um simulacro de batalha naval, em 52 d.C., na presença do imperador Cláudio.

Não consta que a saudação já tenha sido adoptada pelos vassalos do império americano, mas pelo espectáculo do passado fim-de-semana, em que 50 chefes de Estado e de governo, com o alto patrocínio do “César” Trump, foram a Paris amparar Macron, estrela decadente do imperialismo, a pretexto da (re)inauguração de Notre Dame, deve estar para breve.

É claro que os tempos são outros, malgrado todas as semelhanças com a ascensão e queda do império romano, mas há coisas que nunca mudam. Hoje como ao longo da História, os sabujos do poder, desta feita ao serviço de Washington, a nova Roma, delegam a morte nos respectivos súbditos, devidamente industriados por maciças campanhas mediáticas de lavagem ao cérebro.

A política do medo que nos vem sendo servida 24 horas por dia, sete dias por semana, é disso um bom exemplo. É preciso ter medo, muito medo, de tudo, dos imigrantes ilegais, dos maléficos russos que andam de submarino no Tejo, dos novos terroristas que entram pela televisão (não confundir com os que foram reciclados na Síria), dos carros eléctricos chineses, da Temu, da Shein, do Sul Global, dos diferentes, dos outros.

É preciso ter medo, muito medo, para que aceitemos sem rebuço as “algemas forjadas pela mente”, como lhe chamou o poeta inglês William Blake, que os media corporativos diligentemente tecem, para nos levar a aceitar o indefensável e a defender o impensável: que são de guerra os caminhos da paz, que vale a pena tudo sacrificar no altar da segurança capitalista, a nova religião do mundo ocidental.

O actual papa desta doutrina, o neerlandês Mark Rutte, que agora exerce o ofício de secretário-geral da NATO, já não esconde os objectivos da “humanitária” Aliança: «Quando se olha para o que os países gastam em pensões, no sistema de Segurança Social e na saúde, (…) precisamos de uma fracção desses gastos para garantir que os gastos com a defesa cheguem a um nível em que possamos sustentar a nossa dissuasão a longo prazo.» Cortar na saúde, cortar nas pensões, dar mais dinheiro à indústria armamentista, já bafejada pela UE com um terço dos fundos de coesão. Que magnífica perspectiva de futuro!

Rutte reconhece ser um «debate difícil» e que cabe aos políticos «fazer escolhas na escassez», mas promete «ajudar» a convencer os mil milhões de pessoas que vivem sob o chapéu da aliança.

Os gastos militares da NATO são mais de 70% do total de gastos militares de todo o mundo. Não basta. Soltem os papões. É preciso ter medo, muito medo.

 



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