100 anos disto

Filipe Diniz

Há 100 anos, em 21 de Novembro de 1924, o recém-eleito governo conservador britânico anulava os acordos comerciais que o governo anterior, trabalhista, negociara com a União Soviética.

Este era presidido por Ramsay MacDonald (por quem, aliás, Lénine não tinha qualquer estima enquanto figura da II Internacional). Tivera a coragem de realizar esses acordos, positivos para uma União Soviética que tentava reconstruir-se sobre a devastação em que a guerra mundial e a agressão conjunta por parte de todo o campo imperialista, com destaque para a própria Grã-Bretanha, deixara o país.

A justificação do governo conservador para anular os acordos tornou-se um truque clássico, repetido até hoje. Aqui, foi a “carta de Zinoviev”, divulgada pelo jornal Daily Mail em 15 de Setembro, antes das eleições.

Segundo a “carta”, Zinoviev, então presidente do Comintern, “ordenava” ao partido britânico que empreendesse nada menos que “actividades sediciosas”. «O estabelecimento de relações entre os dois países favorecerá o revolucionamento do proletariado britânico e internacional não apenas no sucesso do levantamento em qualquer das zonas operárias, […] mas tornar-nos-á possível ampliar e desenvolver as ideias do Leninismo em Inglaterra e nas Colónias.»

A carta era flagrantemente forjada. Mas alimentou a campanha eleitoral dos conservadores e de toda a reacção britânica. O jornal Punch dava o tom, com um cartoon representando um barbudo bolchevique (uma figura sinistra) com um cartaz dizendo: «Votem por MacDonald e por mim.»

A 27 de Outubro (antes das eleições) Zinoviev divulga um desmentido: «todas as palavras desse texto são falsas.» Aponta vários dos mais grosseiros erros da falsificação. O desmentido só é publicado em Inglaterra em Dezembro e teve de ser o CPGB (Communist Party of Great Britain) a fazê-lo.

São 100 anos, e boa parte da acção política desta gente (incluindo a de cá) continua a ter como base a falsificação e a fraude.

 



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