BES: as privatizações no banco dos réus
Iniciou-se esta semana o julgamento de alguns dos principais responsáveis pelo assalto que representou a gestão privada do BES. Um julgamento que decorre mais de uma década depois do colapso do banco, o que por si só diz muito sobre a morosidade da justiça e da sua eficácia quando esta é confrontada com os mais poderosos interesses que parasitam o País.
Mas o processo do BES foi e é muito mais do que um caso de polícia. Ele exprime o que representou e representa para o País a reconstituição de grupos económicos, os processos de privatizações e o rasto de corrupção que lhe é inerente, a mobilização de recursos públicos, não para salvar o banco, como nos dizem, mas para salvar os interesses de accionistas, especuladores e administradores. O caso BES – mas também o que conhecemos de outros processos como o do BPN, do BPP, do BANIF, etc. – é o corolário do desenvolvimento do capitalismo em Portugal e de uma política, a política de direita, ao serviço dos interesses do capital.
Em todo este percurso, o PCP nunca abdicou de uma posição de denúncia e combate. E denunciámos e estivemos contra a resolução do BES que já custou ao País mais de 8 mil milhões de euros. Denunciámos e estivemos contra a posterior privatização do Novo Banco, com o Estado a ficar com os prejuízos e o banco a regressar às mãos dos privados. Denunciámos e estivemos contra a desresponsabilização das autoridades de supervisão bancária, que se comportaram sempre como um instrumento ao serviço da banca privada.
Infelizmente, o assalto aos recursos públicos não terminou com este caso. Outras privatizações se seguiram, com a TAP a ser comprada com dinheiro da própria TAP, com a ANA – Aeroportos a ser vendida por tuta e meia (aqui não houve Comissão Parlamentar de Inquérito, como o PCP propôs), com a EFACEC a ser reprivatizada depois de gastos milhões de euros de recursos públicos. E muitas das promessas realizadas na altura não só ficaram por cumprir, como em muitos casos a situação é mais grave: os bancos privados são hoje ainda maiores e o País perdeu soberania nos mecanismos de controlo da actividade bancária.
Há por isso todas as razões para continuar a denunciar e a combater as privatizações, e um governo que se prepara para as fazer.